As "cidades do futuro" pretendem ser verdes, sustentáveis, inteligentes e low cost. Isto já existe. Chama-se "Campo". Frederico Lucas

Wednesday, March 30, 2016

O Último Guardador de Cabras

Viaja-se na EN18 em direção a Castelo Branco. Nas proximidades de Alpedrinha, de vez em quando, somos surpreendidos por um fato de cabras. Ao escrever a palavra fato, esclareço que se trata de um conjunto de animais caprinos nas encostas da Serra da Gardunha, como aprendíamos na escola primária. Com tantas reformas e contra-reformas no ensino, talvez já não seja necessário saber o que é um cardume, um pombal, uma vara, uma manada…

Numa tarde soalheira de sábado, concluídas algumas diligências, marcamos encontro no território das pastagens das cabras. António Patrício Tinalhas recebe-me com muita cordialidade, tendo o cuidado de desligar o pequeno rádio portátil.

O nosso guardador de cabras tem raízes nos Enxames, mas nasceu na Fatela há sessenta e oito anos.
Cedo lhe colocaram um rebanho para acompanhar, muitas vezes à custa de faltar à escola. Apesar disso, ainda conseguiu exame da 4ª Classe no Fundão.
Na pastorícia andou, até ser incorporado no serviço militar, que iniciou em Leiria, passando por Castelo Branco e Extremoz durante três anos.
Regressado à vida civil, o pai confiou-lhe o rebanho e o trabalho agrícola, estimulando-o com um vencimento. Todavia, com um salário diário de sessenta e cinco escudos (as mulheres ganhavam vinte e cinco), não conseguiu ficar preso às tarefas do campo. Depressa arranjou passador e “saltou” para Toulouse em França.

Durante catorze anos, esteve ali emigrado, começando por trabalhar numa Fábrica de Curtumes, onde as peles de gado caprino chegavam do Norte de África: Argélia, Tunísia e Marrocos. Seguiu-se o desempenho da função de motorista numa empresa de telecomunicações e, por último, a elaboração de componentes automobilísticos.
Só tem a dizer bem dos tempos na França. No entanto, com os filhos em idade escolar, a entrada de Portugal na CEE e a expectativa de condições laborais e salariais idênticas às de França, decidiu regressar ao seu país natal. Hoje sente que se enganou.
Com as economias francesas, comprou uma casa de habitação e terrenos adjacentes, no Vale dos Clérigos, que recuperou com a implantação de pomares. Voltou novamente à pastorícia, tem essa vocação no seu ADN.

Estamos agora no meio da cabrada: “conheço-as como os dedos das minhas mãos, as mais velhas têm todas um nome: amarela, branca, formosa, cornuda, castelhana, mocha…Se me roubarem alguma sei localizá-la em qualquer local”. O tilintar dos chocalhos, património mundial, não pára e o olhar do Cão Nero, raça Serra da Estrela, está sempre atento a qualquer intruso: “É o meu amigo e companheiro nestas andanças.”
Afirma: “a gente arranja amizade com os animais, acompanhamos e lidamos com eles muitas vezes no dia-a-dia. Ás vezes reconheço que sou áspero, não devia sê-lo.” Todas obedecem ao seu “ ai, ai, ai, fora, fora, uá, uá, uá.”
Esclarece-me que guardar cabras é uma ciência em que se está sempre a aprender. A cabra é um animal inteligente, se faz uma asneira e é repreendida fica escaldada, não volta ao mesmo local tão depressa. A cabra berra ao morrer, mas nunca berra se tiver fome. A ovelha já faz o contrário.
Na proteção da natureza, são as melhores roçadoras das nossas florestas contra os fogos, além de não deixarem os folhedos no chão. Observamos alguns espaços onde não passam as cabras e lá estão silvados e arbustos a dificultar as passagens.
A cabra tem sempre tendência a ir para os pontos mais altos, sobe e nunca desce - tivemos essa experiência enquanto se tomava um café no Cerejal.
O nosso Homem, vendo a cabra lá no alto, desabafava: “Se faço contas, esta vida de pastor não compensa, é uma vida de prisão, difícil, não somos senhores do nosso tempo, não podemos ir a um funeral, a um convívio familiar ou de amigos. Aguento mais um ano, sou o último guardador de cabras de Alpedrinha.”

Texto de António Fernandes e fotografia de João Branco

Thursday, March 10, 2016

Quanto custa uma migração mal sucedida?

A mensagem é romântica e toca todos os portugueses que são vítimas de stress urbano: "Migrar para o Campo" aparece como um desígnio para os tempos modernos.

Melhorar a informação sobre as oportunidades disponíveis e os riscos inerentes a este processo é a missão do Programa Novos Povoadores.

O território português de baixa densidade tem falta de emprego, consequência de um tecido empresarial pouco inovador. Isso gera desemprego, que antecede o fenómeno do despovoamento.

Inverter este ciclo passa por captar empreendedores capazes de transferir para o território rural as atividades tradicionalmente urbanas de elevado valor acrescentado.

Transformar a lã de ovelha em mochilas chic ou uvas em vinho para comer são exemplos de fórmulas que criam emprego na cadeia produtiva.

Cada família é um caso. A configuração familiar, as competências dos adultos e as vocações dos seus filhos obrigam a uma análise cuidada sobre os melhores destinos rurais para a sua migração.
A ansiedade pela aquisição de nova habitação é emocional e legítima, mas nem sempre racional e correta.

A alergia de um membro da família à vegetação local, a falta de condições para a instalação de uma nova empresa ou a incapacidade de escoar os seus produtos ou serviços, são causas comuns para transformar sonhos em pesadelos.

Não existem estudos sobre os custos material e emocional dessas migrações mal sucedidas.
Mas sabemos que onze das treze famílias que desistiram desse projeto migratório acabaram por se separar.
Para os técnicos do Programa Novos Povoadores não é fácil desaconselhar uma família a migrar. Mas é recorrente: 461 famílias atendidas, 140 desaconselhadas a migrar.

O insucesso é uma parte da realidade. No outro lado da estatística estão 255 famílias aprovadas, e dessas 132 estão instaladas em pequenas vilas do território rural português com o apoio do Programa Novos Povoadores.

É uma gota no oceano. Mas são estas gotas que estão a reconfigurar aquilo a que designamos por campo!