As "cidades do futuro" pretendem ser verdes, sustentáveis, inteligentes e low cost. Isto já existe. Chama-se "Campo". Frederico Lucas

Saturday, July 16, 2011

Portugal tem de ser uma Nação Start Up




por CATARINA CARVALHO
Diogo Vasconcelos fez da inovação a sua profissão. Director internacional da Cisco, vive em Londres mas viaja pelo mundo à procura de experiências social ou economicamente inovadoras. Eis as suas lições sobre inovação que, considera, será a pedra-de-toque para o futuro da economia portuguesa.
«Nem imagina a minha semana passada...», diz Diogo Vasconcelos, às nove da manhã de segunda-feira.
Não é bem assim. Esta entrevista deu para fazer uma ideia: esteve marcada para uma das suas breves passagens por Lisboa, foi desmarcada e remarcada duas vezes e acabou por ser feita por videoconferência entre Porto Salvo e Londres. Tudo por causa dos problemas de agenda de Diogo Vasconcelos. Ele começou essa semana em Bruxelas a moderar um seminário com representantes dos ministros da Ciência dos 27 países da União Europeia (UE) sobre... inovação. E acabou-a em Lisboa numa reunião de um grupo que inclui a Caixa Geral de Depósitos e que pretende trazer capital de risco para jovens e inovadoras empresas portuguesas.
Mas não seria de esperar que o português que mais se dedica ao tema desta revista, a inovação, não tivesse uma agenda tão cheia.
Afinal, Diogo Vasconcelos é presidente da direcção da APDC - Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações -, director internacional da Cisco, onde coordena vários programas de inovação social como o Social Innovation Exchange - uma organização que reúne ONG nesta área -, presidente e membro de vários grupos de discussão sobre políticas de inovação dentro da UE e conselheiro do Presidente da República, para referirmos apenas as mais significativas.
E tem sido sempre assim. Foi vice-presidente e deputado do PSD. No governo de Durão Barroso, coordenou a Agência para a Sociedade do Conhecimento, que fez o Portal do Cidadão, a banda larga nas escolas, as compras electrónicas, entre outras coisas. E também fez parte da Agência para a Inovação.
Hoje, com 42 anos, este licenciado em Direito, mas que nunca exerceu advocacia, vive em Londres e parece ter encontrado na inovação a palavra-chave para a sua vida. Eis as lições, conselhos e visões de quem anda pelo mundo e acha que neste pequeno rectângulo ainda temos muito que aprender nesta área decisiva para a economia do futuro... e do presente.

Há alguma fórmula, método ou forma de pensar que propicie o aparecimento de novas ideias?
Em Where good ideas come from, Steve Johnson tenta encontrar essa resposta. E conclui que as boas ideias surgem quando diferentes intuições se confrontam. Como criar ambientes propícios a que tal aconteça? Um bom método é criar espaços para que gente com formações diferentes se encontre. Em Copenhaga, três ministérios criaram o MindLab, em que cidadãos são convidados a desenhar novos serviços públicos. A Google permite que os empregados usem vinte por cento do tempo a criar projectos além das suas funções - o Android nasceu assim. Ao contrário do que se ensina nas escolas de gestão, não é nas reuniões formais que se inova. A cafetaria da empresa é mil vezes mais importante do que a sala de reuniões.

Que conselhos daria aos empresários para terem sucesso?
Entrar num mercado em crescimento, onde seja possível fazer algo de verdadeiramente novo. Saber explicar a novidade em poucos segundos. Escolher uma boa equipa, começar pequeno, controlar bem os custos e a tesouraria. Escolher clientes exigentes. Não é um sprint, é uma maratona. Encarar cada «não» como uma pergunta. Ser flexível.

O que define e como se mede uma inovação?
Inovar é imaginar novos futuros possíveis. Quem inova é empreendedor e move-se pelo desejo de deixar uma marca. O economista austríaco Joseph Schumpeter foi o profeta da inovação. Destruição Criativa foi o nome dado a este processo de alterar o statu quo.

Uma inovação dá sempre dinheiro?
Não, inovar implica incerteza. Muitas inovações chegam antes do seu tempo. O primeiro tablet chamava-se Newton, foi lançado pela Apple em 1989 e foi um flop. Doze anos depois, o iPad conquista o mundo.

Quais são os negócios de futuro em Portugal?
Serviços e produtos a pensar no mercado dos seniores. Negócios na área do ambiente, da eficiência energética e da reabilitação urbana. Creio que é daí que virão muitos dos novos empregos.

Costumamos falar do desenrascanço português, desenrascar pode ser sinónimo de inovar?
Os portugueses são criativos, trabalhadores e adaptam-se facilmente a novos contextos. Desenrascar é uma mais-valia, mas cria excesso de confiança. Vale a pena planear. Os planos quase nunca se cumprem, mas ajudam a arrumar ideias, a identificar pontos francos, erros e objectivos.

Quando é que os portugueses foram mais inovadores? E o que é que nos faz falta agora?
Quando se abriram. Quando, confrontados com desafios difíceis, souberam mudar. Temos hoje gente mais qualificada e com mais mundo, empresas muito boas, cientistas de nível mundial e infra-estruturas de comunicações ao nível as melhores do mundo. O que falta? Confiança e capital social. Valorizar o conhecimento. Portugal tem um défice enorme de capital social, fraca mobilidade social e uma enorme incapacidade de gerar consensos sobre o futuro. A Suécia é o que é porque empresários e trabalhadores souberam construir em conjunto. Portugal não tem uma elite comprometida com o seu país, com coragem de intervir na política. Falta valorizar quem empreende, quem cria emprego.

Quem é o político português mais inovador de todos os tempos?
O infante D. Henrique.

Foi conselheiro do Presidente Cavaco Silva para esta área, o que fazia exactamente?
Acompanhava a actividade legislativa do governo e do Parlamento nas matérias ligadas à sociedade do conhecimento. Sugeria iniciativas sobre inovação, aconselhava, fazia a ponte entre a sociedade civil e a Presidência. Tive a responsabilidade da página do Presidente, que entrou no ar no momento da sua tomada de posse.

Já foi deputado e vice-presidente do PSD - continua ligado ao partido. A política portuguesa é um ambiente favorável à inovação?
A política portuguesa está sedenta de inovação. Os partidos deviam assumir-se como plataformas abertas de construção do futuro e não como grupos fechados. Deviam estar mais próximos das populações, abrir espaço a gente com vontade de participar, para além dos formatos tradicionais.

Em que medida é que a inovação é mais crucial, por exemplo, para Portugal do que para a Alemanha?
Para Portugal, a situação é de emergência. Vender mais e mais caro ao exterior implica incorporar mais conhecimento e mais design nos produtos, capitalizar as empresas, diminuir os custos e redobrar os apoios em I&D. A Alemanha é a quarta economia mundial e vai liderar a retoma europeia. Mas até a Alemanha está a mudar. Em Berlim e Munique, o que vemos? Um ambiente multicultural fantástico, atracção de talento de todo o mundo, confiança no futuro... Apesar dos cortes na despesa, a Alemanha vai fazer o maior aumento de sempre no investimento em inovação: mais 16 mil milhões de euros para educação e inovação, um aumento de dez por cento.

É director na Cisco, em Londres, e a sua vida é viajar pelo mundo de um lado para o outro. Que países estão a lidar melhor com os desafios do futuro e onde encontrou melhores exemplos?
Não é preciso ser grande nem central para inovar. Ninguém é demasiado pequeno ou periférico. Os finlandeses, por exemplo, querem dominar no design. Não só industrial mas de serviços. Fundiram três universidades - gestão, engenharia e design - para criar a Alvar Aalto University, que quer ser a primeira universidade de inovação no mundo. O design será neste século o que o marketing foi no século xx. Quando falamos de design, falamos de envolver o cliente na criação do produto. Os focus group já não chegam. Se levarem a sério este desafio de criar com e não para, as empresas vão precisar menos de MBA e mais de antropólogos. Israel é um outro exemplo. Há quarenta anos exportava laranjas e têxteis de baixo valor. Hoje, 53 por cento das exportações são alta tecnologia. É o segundo país mais atraente para capital de risco, o maior investidor mundial em I&D per capita, o primeiro não-americano com empresas no Nasdaq. Uma verdadeira start up nation. Um dos grandes responsáveis por isso foi Yigal Erlich, chief cientist nos anos 1990. Lançou o Yozma que atraiu para Israel a nata do capital de risco mundial. Passou de três a oitenta fundos de capital de risco e de 350 a 3500 start ups tecnológicas.

Na semana passada, esteve em Lisboa para uma reunião de investidores de capital de risco. Será por aí o nosso caminho?
Uma política de inovação mais ambiciosa e radical - um verdadeiro restart - passa essencialmente pela criação de espaço para os novos empreendedores e, em especial, para os mais radicais. Portugal tem de ser um paraíso para os empreendedores ambiciosos, pois só um surto de novas iniciativas empresariais pode criar emprego e abrir perspectivas de futuro. Sem capacidade de se financiarem no exterior e pouco capitalizadas, milhares de empresas podem asfixiar. A inovação incremental destrói emprego, pois estamos a pedir às empresas para serem mais produtivas e isso significa que uma parte da sua eficiência passará por menos gente. Só a inovação radical diminui o desemprego: novas empresas, novos produtos, novos mercados. Todos os estudos evidenciam que essas empresas criam mais emprego, mais qualificado e exportam mais. A nossa política económica devia estar voltada para isso: fazer de Portugal uma start up nation. A actual crise custou à Europa seis milhões de empregos e muitos desses postos de trabalho não vão voltar. É indispensável estimular novas fontes de crescimento. A Europa tem um grande défice de empresas inovadoras, jovens e de crescimento rápido. Nos EUA, entre 1992 e 2005, 64 por cento dos empregos foram criados por empresas com menos de cinco anos.

Como é que a Europa pode encurtar essa distância em relação aos Estados Unidos?
Há dois tipos de inovação, a incremental e a radical. A primeira é fazer cada vez melhor, mais com menos recursos. A Europa é boa nisso. A segunda, significa inventar o futuro. Aqui, os americanos dominam. Veja-se os telemóveis: foram as universidades e as empresas europeias a desenvolver o standard GSM e até há pouco a Europa era rainha e senhora neste mercado. Mas a Apple introduz o iPhone e um mercado totalmente novo, de centenas de milhares de aplicações. A Google reage com o Android, hoje com mais adesões diárias. Em escassos anos, a liderança mundial deste mercado passou para o outro lado do Atlântico, para a Califórnia, o lugar onde nada é impossível.

E onde fica a Europa?
Os programas de investigação europeus - cada vez mais burocráticos - favorecem as grandes empresas de hoje e ignoram as grandes empresas de amanhã. A prioridade europeia devia ser uma nova vaga empreendedora, capaz de criar um novo optimismo e um renascimento económico e social. É vital reforçar o mercado interno, criar um mercado único europeu para a inovação, acabando com a fragmentação actual.

Como?
Olhe, reduzindo drasticamente a complexidade e custos das patentes. Obter uma patente nos 27 países da União Europeia é 15 vezes mais caro do que nos EUA. E precisamos de aumentar o investimento em capital de risco. Os bancos mostram-se relutantes em emprestar a empresas sem colateral, pelo que o papel do capital de risco é decisivo para financiar as empresas. Ora, as empresas com potencial para se internacionalizar têm acesso muito limitado, pois a maior parte dos fundos de venture capital na Europa são pequenos.

Faz parte do grupo Innovation Union (União da Inovação) - que funciona junto da Comissão Europeia. Já conseguiu convencer Durão Barroso e a Comissão das vantagens de apoiar ideias inovadoras em vez de auto-estradas?
A Europa tem de passar das auto-estradas para as redes do futuro: banda larga e redes eléctricas inteligentes. Essas redes são a chave para novos empregos e novos mercados e para a redução de custos. Mas sem novos serviços, a apetência por estas redes ficará muito aquém do seu potencial. O grande driver do progresso terá de ser a criatividade de consumidores e empreendedores. Assim serão criados novos modelos de negócio e estímulo a novos padrões de consumo. Nos anos 1980 e 1990, a agenda da inovação esteve focada exclusivamente nas empresas. Hoje, a Europa precisa de mobilizar a criatividade colectiva para melhorar a capacidade de inovação e responder aos desafios sociais do nosso tempo: o envelhecimento, o desemprego juvenil e a redução das emissões de carbono.

Como é que isso se faz, se temos cada vez menos orçamento e uma enorme pressão para reduzir o défice?
Cortar nos desperdícios é fundamental, mas não chega: fazer mais com menos implica inovar radicalmente. A forma mais fácil de reduzir o défice é cortar nos salários e eliminar e reduzir serviços públicos. A forma mais inteligente é mobilizar a sociedade para criar novas soluções para as questões sociais. Em vez de reduzirmos a oferta de serviços públicos, devemos reduzir a procura. Como se faz? Prevenir o crime fica mais barato do que pôr mais polícias na rua. Se melhorar a autonomia dos doentes com doenças crónicas, estes não precisam de ir constantemente ao hospital. Um tempo de crise deve ser um tempo de criatividade social. E teremos uma nova lógica - sociedade do bem estar (welfare society) e não Estado de bem estar (welfare State). Se se acreditar que o Estado não tem o monopólio do serviço público, pode devolver-se o poder aos cidadãos.

Acha que alguém consegue ter boas ideias neste ambiente deprimido?
Muitas das empresas de sucesso foram criadas em períodos de crise. E todas as grandes recessões do passado foram seguidas por mudanças radicais na estrutura industrial. Na economia privada, o crescimento terá de vir das exportações. Num mundo ligado, os cidadãos de todo o mundo são clientes potenciais e recursos de alta qualidade podem ser encontrados em todo o mundo. Ou seja: nenhum país é, à partida, demasiado pequeno ou periférico. Veja-se a Holanda, a Suécia, a Dinamarca: são países pequenos mas abertos ao mundo, com empresas líderes em múltiplos sectores, um ambiente favorável ao empreendedorismo e uma cultura de rigor, de aposta permanente na ciência, na inovação e na criatividade.

Como é que podíamos estar a aproveitar esta crise do ponto de vista da inovação?
Apostando nos sectores que vão criar mais empregos: ambiente, envelhecimento, reabilitação urbana, indústrias criativas, manufactura flexível. Tornando o Estado um sistema aberto, para permitir colaboração e a criação de novos mercados. Usando o poder aquisitivo Estado para estimular a inovação. Na União Europeia, a contratação pública representa 2,155 mil milhões de euros, o equivalente a 17 por cento do PIB europeu. Nos EUA, o programa de compras do governo federal gera cerca de 1800 novos produtos anualmente, a maior parte dos quais desenvolvidos por PME inovadoras. Sugeria ainda consagrar pelo menos um por cento do orçamento de cada ministério a fundos de inovação social, destinados a financiar as melhores ideias para fazer mais com menos. Nos EUA, foi lançada uma série de fundos desse tipo pelo governo, os quais têm mobilizado milhares de projectos e financiamento privado. Vale a pena, pois, estudar os vários fundos de inovação social lançados em vários países.

Sente que o mundo está, de facto, a mudar de paradigma? Para que paradigma?
Um mundo mais com e menos para. De organizações como hierarquias a organizações como redes. De uma autoridade do topo para baixo a uma autoridade que se ganha pelo respeito entre os pares. De um mundo onde o valor nasce apenas da transacção ao mundo onde se cria valor pela relação. De políticos que falam para nós, para um mundo em que a política é uma conversação. Esta mudança significa que o futuro pertence às marcas, organizações e líderes que se assumirem como plataformas abertas, em que possamos participar na criação do futuro.

Os últimos acontecimentos no Médio Oriente enquadram-se nesse novo paradigma?
Sim. A informação está acessível, a expectativa de participação cresce sobretudo por parte de uma nova geração que não se resigna perante a corrupção e o nepotismo. Tenho andado pelo Médio Oriente e constato que a cultura ocidental é bem mais presente lá do que se imagina. Um dia veremos esta vaga inundar África.

E a manifestação de jovens que está marcada para dia 12 em Lisboa e no Porto também?
Creio que sim.
«Para nós, era inovar para sobreviver»

Isto da inovação é uma paixão. Como é que apareceu na sua vida?
O Rui Marques convidou-me para director adjunto da Forum Estudante, estava a terminar o curso de Direito. Tinha a paixão pelo jornalismo e não hesitei. Pouco depois, a Media Capital decidiu vender a revista e resolvemos assumir nós o projecto. A partir daí, aprendemos a inovar para sobreviver. Não tínhamos estudos sobre o assunto nem a inovação estava «na agenda». Se fizéssemos diferente podíamos competir com quem tinha escala. Assim fizemos, na área do múltimedia e da internet. Mais tarde, lancei a Ideias & Negócios para mostrar um Portugal inovador que não tinha lugar nas revistas económicas e iniciar uma pequena revolução cultural. A revista do «Despeça-se já!» mostrava um Portugal de novos empreendedores, gente com brilho nos olhos, grandes sonhos e ambições. Na ANJE, lancei a Academia dos Empreendedores para aproximar a universidade deste mundo.

Quando lhe fizeram o convite para ir para a Cisco, em Londres, ponderou ou aceitou rapidamente?
Aceitei rapidamente, pois gostei muito do desafio. Vim para Londres em Fevereiro de 2007. Estes quatro anos foram fantásticos e passaram num ápice.

Continua próximo do PSD. Considera regressar e voltar à política?
Não conto regressar à política partidária activa, mas mantenho um empenhamento activo no seio da sociedade civil.

«O direito ao emprego não existe»

Está a par da geração Deolinda e do movimento dos precários? O que lhe parece?

Compreendo a insatisfação e a revolta perante um sistema feito para proteger quem está. Mas, ao contrário do que diz a letra, quem estuda não é parvo, é inteligente. Estudar não é uma forma de obter emprego, é uma actividade indispensável e uma atitude permanente numa sociedade do conhecimento. Ainda mais em Portugal, onde quem tem licenciatura tem ganhos enormes face a quem não é qualificado. O emprego precário cresce porque se teima em manter uma enorme desigualdade entre quem está fora e quem está dentro do sistema.

Do ponto de vista da inovação não há direito ao emprego. Pois não?
Não tenho direito a emprego nem ele é para toda a vida. Se não está disponível, devo poder criar o meu emprego. Quanto ao governo, o que tem feito é piorar a situação: massacra os recibos verdes com impostos, regulamenta até ao limite os estágios, não facilita a contratação nem reduz os custos do emprego para as empresas. Sem perspectivas de emprego, ou os desempregados criam o seu emprego ou emigram. A opção mais fácil para os mais qualificados e mais jovens é emigrar. Aqui em Londres nunca se viram tantos portugueses, cada vez mais jovens e mais qualificados. O mundo está cheio de oportunidades.

Qual seria a sua bandeira se fizesse hoje uma manifestação?
Há dois anos, lancei com Geoff Mulgan e outros amigos um manifesto intitulado Fixing the Future. Mantém-se actual. Não basta corrigir o passado, é preciso preparar o futuro. Isso significa promover a inovação social, fomentar o empreendedorismo e focar os recursos escassos nas actividades que irão criar mais empregos. Tudo isso implica uma ruptura com a lógica actual. A dicotomia Estado/mercado está ultrapassada. Precisamos de reforçar as capacidades da sociedade encontrar novas respostas. É possível criar emprego e simultaneamente dar resposta a necessidades sociais.


in NS

Friday, July 08, 2011

:-( Um abraço muito forte, Diogo!



Há pessoas que são farois dos nossos projectos.
Não sei quantas pessoas "recomendei" na minha vida. Mas sei o que escrevi sobre Diogo Vasconcelos.

O Diogo mereceu vários posts neste blogue: Porque era um visionário, porque sabia comunicar e liderar, e porque tinha um passado empreendedor com tantas ou mais dificuldades que o meu; E deu a volta. Tal como o fez Steve Jobs.

Com 43 anos.

Portugal perdeu um grande talento.

Tuesday, June 28, 2011

O stress da cidade está a deixar uma marca no cérebro das pessoas

O Metro à hora de ponta é só um exemplo do stress vivido na cidade, que infelizmente não acaba em cada experiência que se tem ou numa noite bem dormida. Foi isso que cientistas verificaram ao comparar pessoas que vivem em cidades com pessoas que vivem em zonas rurais. As primeiras reagem de uma forma diferente a experiências com stress. Esta diferença está marcada no cérebro, é mais profunda para quem nasceu e cresceu na cidade e está relacionada com doenças mentais como a esquizofrenia. O estudo foi publicado esta quarta-feira na revista Nature.

Há cada vez mais pessoas a viver em cidades (Rui Gaudêncio)

“A nossa informação revela efeitos neuronais em pessoas que crescem e habitam em zonas urbanas quando enfrentam situações de stress social”, conclui o artigo escrito por uma equipa do Instituto de Saúde Mental da Universidade de Heidelberg, na Alemanha.

O efeito da cidade no ser humano está longe de ser uma novidade e sabe-se por estudos descritivos que existe uma maior tendência de doenças mentais nas regiões urbanas. As pessoas têm 21 por cento de probabilidade acrescida de ter problemas de ansiedade e 39 por cento de terem problemas de humor. “Viver na cidade aumenta o risco de depressão e ansiedade e o rácio de esquizofrenia é marcadamente maior em pessoas que nasceram e cresceram na cidade”, escrevem os investigadores Daniel Kennedy e Ralph Adolphs, num artigo de análise da Nature sobre o estudo publicado agora.

Na nova investigação, a equipa liderada por Andreas Meyer-Lindenberg foi analisar o cérebro de alemães que vivem em três contextos diferentes: regiões rurais, regiões urbanas com mais de 10.000 habitantes e regiões com mais de 100.000 habitantes.

Os cientistas aplicaram vários testes de stress social a mais de uma centena de participantes saudáveis. Nos testes, as pessoas tinham que resolver problemas matemáticos ou espaciais em tempo limite e tinham uma pressão acrescida: um feedback negativo dos investigadores.

Os cientistas mediram vários parâmetros fisiológicos e através de imagens de ressonância magnética verificaram a resposta neuronal aos desafios. Os testes conseguiram induzir o efeito de stress nos participantes a nível fisiológico e cerebral mas houve diferenças importantes. A região da amígdala tinha uma actividade maior nas pessoas que viviam em zonas urbanas mais povoadas do que nas que vivam em zonas rurais.

Problemas desde o nascimento

A amígdala é uma região que sinaliza os efeitos negativos e as ameaças do ambiente. Paulo Machado não ficou surpreendido com estes resultados. Para o investigador do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, “a experiência urbana é particularmente recente” na história do Homem, “é desafiadora” e pode fomentar o “desequilíbrio das pessoas”.

Segundo o especialista, esta resposta dos participantes é coerente face aos desafios que são colocados. “Está adaptada ao nível de stress que é imposto” nas regiões urbanas, disse o investigador, que não tem qualquer relação com o estudo, mas que o considera “altamente confirmatório” do que já se conhecia.

A análise cerebral também revelou que as pessoas que nasceram e cresceram em zonas urbanas tinham uma actividade anormal numa região específica do córtex durante as experiências. Esta região também está associada à resposta durante situações de stress num contexto social.

O que é que as cidades estão a fazer às crianças e aos adolescentes, quando estão nas escolas e mais protegidos de situações de stress? “As provas epidemiológicas sugerem que o efeito máximo acontece durante o nascimento, antes de chegarem aos jardins-de-infância – uma possibilidade é que a culpa seja do stress sofrido pelos pais”, explicou ao PÚBLICO Andreas Meyer-Lindenberg, coordenador da pesquisa.

Mais, o estudo mostra que nestas pessoas há uma ligação neuronal mais fraca entre a região da amígdala e a região do córtex. Esta ligação enfraquecida já era conhecida em doentes esquizofrénicos. Segundo o comentário de Kennedy e Adolphs, isto sugere “que neste circuito podem convergir um risco genético e um risco ambiental para o surgimento das doenças mentais”. Ou seja, se há uma tendência genética para alguém desenvolver algum tipo de doença mental, o ambiente stressante citadino pode dar um empurrão valente.

Esta questão é particularmente relevante para Paulo Machado. “Como nós hoje vivemos maioritariamente em cidades, isto deixa de ser um problema de uma minoria para passar a ser um problema de saúde pública”, explicou. Segundo o investigador, é preciso insistir neste estudos para tentar encontrar as causas directas de problemas que provocam o desequilíbrio e o stress nas pessoas. Um exemplo simples é o dióxido de carbono, que em maiores concentrações e durante largos períodos “aumenta exponencialmente a irritabilidade das pessoas”, disse o investigador português. Os taxistas ou condutores de transportes públicos estão especialmente vulneráveis a esta situação, que deve ser combatida. Já para a diminuição do stress, é preciso mudar o modo de vida, as rotinas, os horários, atitudes, comportamentos, o que é mais difícil.

“Nós não devemos olhar para estes estudos e dizer que alternativa é a não cidade. A cidade é uma das melhores invenções do homem”, disse. “O que precisamos é de uma verdadeira transformação do modo de vida urbano.”

in Público, Nicolau Ferreira

Monday, June 27, 2011

EDP avança hoje com projecto para incentivar novas famílias em Trás-os-Montes



A EDP, os Novos Povoadores e a Câmara de Alfândega da Fé vão avançar hoje com um projecto piloto para incentivar a instalação de novas famílias naquele concelho transmontano.
Segundo disse hoje à Lusa, a directora da Fundação EDP, Isabel Marques, esta iniciativa assenta num projecto piloto que está a ser instalado na região do Baixo Sabor, onde se encontra em fase de construção um grande empreendimento hidroeléctrico.

«O projecto tem por objectivo atrair casais que pretendam construir uma nova vida nesta região, que tem perdido população, e acreditamos que há cada vez mais pessoas que pretendem mudar a sua vida para o interior do país», acrescentou a responsável.

A criação de condições para reter jovens e atrair novos residentes figura no topo da lista de preocupações, a par do emprego e do desenvolvimento turístico da região.

«O Baixo Sabor tem sido uma região piloto em vários projectos socais, económicas ou culturais promovidos pela EDP, dado o facto de haver uma barragem que está em fase adiantada de construção», sublinhou Isabel Marques.

As famílias candidatas à mudança, deverão obedecer a alguns critérios que garantam «o sucesso do novo projecto de vida».

«Para atender a esta necessidade, a EDP recorre à experiência dos Novos Povoadores, entidade, que tem vindo a desenvolver o conceito de repovoamento das zonas mais despovoadas do país, através da migração de famílias urbanas, a qual vai apoiar a mediação às famílias em mudança, em estreita articulação com a Câmara», concluiu a responsável pela Fundação EDP.

A iniciativa, após formalizada, visa atender a uma das principais expectativas detectadas pela EDP nos inquéritos de opinião realizados nas regiões abrangidas pelas novas barragens tendo em vista área do território menos povoadas.

O projecto será financiado pela EDP, no âmbito do conjunto de iniciativas de promoção de desenvolvimento nos concelhos onde desenvolve novos investimentos hídricos.

Lusa/ SOL

EDP avança hoje com projecto para incentivar novas famílias em Trás-os-Montes



A EDP, os Novos Povoadores e a Câmara de Alfândega da Fé vão avançar hoje com um projecto piloto para incentivar a instalação de novas famílias naquele concelho transmontano.
Segundo disse hoje à Lusa, a directora da Fundação EDP, Isabel Marques, esta iniciativa assenta num projecto piloto que está a ser instalado na região do Baixo Sabor, onde se encontra em fase de construção um grande empreendimento hidroeléctrico.

«O projecto tem por objectivo atrair casais que pretendam construir uma nova vida nesta região, que tem perdido população, e acreditamos que há cada vez mais pessoas que pretendem mudar a sua vida para o interior do país», acrescentou a responsável.

A criação de condições para reter jovens e atrair novos residentes figura no topo da lista de preocupações, a par do emprego e do desenvolvimento turístico da região.

«O Baixo Sabor tem sido uma região piloto em vários projectos socais, económicas ou culturais promovidos pela EDP, dado o facto de haver uma barragem que está em fase adiantada de construção», sublinhou Isabel Marques.

As famílias candidatas à mudança, deverão obedecer a alguns critérios que garantam «o sucesso do novo projecto de vida».

«Para atender a esta necessidade, a EDP recorre à experiência dos Novos Povoadores, entidade, que tem vindo a desenvolver o conceito de repovoamento das zonas mais despovoadas do país, através da migração de famílias urbanas, a qual vai apoiar a mediação às famílias em mudança, em estreita articulação com a Câmara», concluiu a responsável pela Fundação EDP.

A iniciativa, após formalizada, visa atender a uma das principais expectativas detectadas pela EDP nos inquéritos de opinião realizados nas regiões abrangidas pelas novas barragens tendo em vista área do território menos povoadas.

O projecto será financiado pela EDP, no âmbito do conjunto de iniciativas de promoção de desenvolvimento nos concelhos onde desenvolve novos investimentos hídricos.

Lusa/ SOL

Saturday, June 18, 2011

A piranha autárquica

Há um drama no memorando assinado com o FMI e a UE.
O poder autárquico vai ser atirado às piranhas mas ninguém vai querer meter a mão no assunto para não ficar sem ela. Ninguém duvida que este é um país onde concelhos e freguesias nasceram com a generosidade viçosa dos cogumelos. Serviram para tudo, sobretudo para criar clientelas musculadas e bajuladoras. Os novos regedores valem votos e gerem interesses para os quais os líderes partidários olham envergonhados mas que, no momento da verdade, não renegam. Não admira que, tal como a justiça, deva ser um alvo de reforma. Há um problema. Reformar as autarquias não trará uma digestão fácil a quem tiver de a fazer. Causará, muito provavelmente, alguma congestão política. Reformar as autarquias é decisivo. Mas requer uma gestão prudente, num país que se inclinou demasiado para o litoral.

Por isso não pode ser feita por pura lógica matemática ou por excelso interesse partidário. São os abusos que estão em causa, não os princípios. A menos que a ideia do FMI e da UE seja desertificar Portugal e transformá-lo numa grande Lisboa com zonas adjacentes para as praias e o golfe. Reformar a teia autárquica requer criar verdadeiros pólos no interior que não sejam apenas centros de emprego mas verdadeiros íman para o repovoamento agrícola e social, que será fundamental num novo Portugal. A reforma autárquica não pode ser uma acção de contabilidade e de engenharia financeira supervisionada pelo FMI e pelos burocratas que em Bruxelas destruíram, com a ajuda amiga da ASAE, metade dos restaurantes populares do interior. Terá de ser conciliada com a visão de D. Sancho I, o Povoador.

in Negócios, Fernando Sobral

Friday, June 17, 2011

Empreendedores-empresários-ativistas procuram-se!

As figuras públicas sem dúvida que são impulsionadoras de novas tendências. Se há portugueses que imitam os seus ídolos ao pintar as unhas dos pés de preto ou a dar um nome diferente a um filho, também há aqueles que observam de perto os empresários nacionais e a forma como contribuem para um país melhor.

Todas as empresas têm responsabilidades socias, nem que seja apenas em teoria e, é impossível dissociar o empresário da sua empresa. Isto é, o comportamento social da empresa influencia a imagem do empresário e vice-versa. Mas atualmente há empresários cada vez mais ativistas fazendo jus à teoria que têm em papel.

Ou seja, não são apenas empreendedores nas suas empresas como também o são na vida em geral. Temos como exemplos, Francisco Pinto Balsemão, que organizou o Salão de Mobilidade Sustentável, em que será analisada a evolução recente das marcas no que diz respeito aos carros elétricos e à instalação de infraestruturas que possibilite a concretização da mobilidade elétrica.

Belmiro de Azevedo através do programa "Porto Seguro" foi um dos modelos de referência aos jovens, promovendo o empreendedorismo e fomentando a necessidade de formação; Rui Nabeiro que se dedica a diversas causas sociais tendo uma intervenção ativa na sociedade; entre outros.

Estes empreendedores-empresários-ativistas são fundamentais como exemplos à sociedade em geral e como forma de "obrigar" outras empresas/instituições públicas ou privadas a seguirem o mesmo caminho.

in Expresso, Ana Campos

Thursday, June 16, 2011

Projecto Novos Povoadores é alternativa à vida na cidade

«Muitas pessoas que vão para o interior já não regressam à cidade», garantiu à TSF um dos membros do projecto Novos Povoadores, que orienta quem quer viver com menos custos e mais qualidade de vida fora das metrópoles.

Um grupo de pessoas que integra o projecto de repovoamento de zonas rurais, denominado por Novos Povoadores, tem, desde há alguns anos, rumado ao interior desertificado de Portugal para ganhar qualidade de vida.

Em declarações à TSF, Frederico Lucas, um dos membros deste projecto, confirma que alguns dos efeitos da crise estão a mobilizar as pessoas para mudar de vida.
«Existe mais gente a manifestar interesse em mudar para o interior do país há medida que os encargos sobem e os rendimentos descem na cidade», disse.

Aliás, sublinha o "povoador", o movimento de migração está a gerar um «fenómeno». «A maioria das pessoas que vão para o interior já não regressam à cidade. Apesar de terem nascido e vivido nas áreas metropolitanas querem, agora, outro estilo de vida», explica.
Frederico Lucas, do projecto Novos Povoadores, considera positiva a chamada de atenção do Presidente da República, que, no discurso das comemorações do 10 de Junho, alertou para a desertificação do interior de Portugal, sublinhando as potencialidades das terras do interior.

«Foi discurso importante para as pessoas que estão a ir para o interior e que o fazem com algum receio. Elas olham com esperança para esta mudança, mas têm receio porque é um modelo de vida que ainda está a nascer em Portugal. E, claro, questionam se é bom», conclui.

in TSF

Monday, June 06, 2011

Empreendedores-empresários-ativistas procuram-se!

As figuras públicas sem dúvida que são impulsionadoras de novas tendências. Se há portugueses que imitam os seus ídolos ao pintar as unhas dos pés de preto ou a dar um nome diferente a um filho, também há aqueles que observam de perto os empresários nacionais e a forma como contribuem para um país melhor.

Todas as empresas têm responsabilidades socias, nem que seja apenas em teoria e, é impossível dissociar o empresário da sua empresa. Isto é, o comportamento social da empresa influencia a imagem do empresário e vice-versa. Mas atualmente há empresários cada vez mais ativistas fazendo jus à teoria que têm em papel.

Ou seja, não são apenas empreendedores nas suas empresas como também o são na vida em geral. Temos como exemplos, Francisco Pinto Balsemão, que organizou o Salão de Mobilidade Sustentável, em que será analisada a evolução recente das marcas no que diz respeito aos carros elétricos e à instalação de infraestruturas que possibilite a concretização da mobilidade elétrica.

Belmiro de Azevedo através do programa "Porto Seguro" foi um dos modelos de referência aos jovens, promovendo o empreendedorismo e fomentando a necessidade de formação; Rui Nabeiro que se dedica a diversas causas sociais tendo uma intervenção ativa na sociedade; entre outros.

Estes empreendedores-empresários-ativistas são fundamentais como exemplos à sociedade em geral e como forma de "obrigar" outras empresas/instituições públicas ou privadas a seguirem o mesmo caminho.

in Expresso, Ana Campos

Friday, May 20, 2011

Mergulho matinal!



Na Irlanda do Norte, há um labrador retriever que todos os dias quando acorda pelas 6 da manhã, o seu passeio predilecto é ir até ao porto da pequena cidade onde vive, e depois mergulha e nada com um golfinho ficando com ele cerca de 10 minutos a deliciarem-se na água. Entretanto quando a 1ª embarcação sai do porto, o golfinho persegue essa embarcação para ir tomar o pequeno almoço (peixe atirado do barco) e o labrador regressa para a margem para o seu dono.
O labrador faz isto desde os 8 meses, e tem agora 4 anos de idade!

in Sérgio Briosa

Friday, May 13, 2011

Virgílio, pastor, fala do País


Tem 37 anos, a quarta classe, e gosta de pastorear o seu rebanho em liberdade. A "ruína" de Portugal não lhe é indiferente. Estas são algumas das suas convicções

"Eu gosto disto. É como lhe digo, isto é diferente. A gente não anda ao mandado de ninguém. Agarrei-me a isto, agarrei-me ao gado.

A trabalhar para um patrão ganha-se muito melhor dinheiro. E com outras condições. Pega-se às oito da manhã e larga-se às cinco. Está a gente livre. Tem-se sábados, dias santos, feriados. Tem-se subsídio de férias e de Natal. Eu, na época da ordenha tenho de pegar às seis da manhã, quando não é às cinco e meia. E às vezes à meia-noite ainda lá ando. São dois dias num. Então trabalhar para um patrão não é maior sossego? Anda-se ao mandado deles, não é? Mas é um sossego.

Eu não fui assim criado. Fui habituado assim e gosto de fazer o que faço. Não é pelo que se ganha.

O ar puro é diferente. É outra liberdade. Às vezes falam-me que é mais bonito morar numa cidade como a Covilhã ou Lisboa. Eu, se fosse morar para a Covilhã morria logo. Com o ar e o cheiro dos carros e o barulho. Eu sou novo, mas fui criado à moda antiga. O meu pai tem 86 anos. Trabalhou sempre na agricultura para criar os filhos. Éramos nove irmãos. Sou o mais novo de todos. Somos da Bouça. Foi assim, o gado foi passando, passando, e já cá estou há 20 anos. Queriam vender o gado e eu disse que ficava com ele. Antigamente tinham muitos filhos e criavam-nos todos. Agora é um ou dois e já é muito.

É por isso que isto agora está como está. Isto está na ruína porquê? Nem numa enxada sabem pegar. Não sabem lavrar um bocadinho de terra nem cuidar de um animal. E onde é que se produz a maior parte dos alimentos? É do gado e da terra é que vem tudo. A mim dizem-me "tu cheiras a cabra". É verdade! Mas de onde é que vem tudo? É dos computadores ou da internet? A malta de agora julga que vem tudo do ar. Se acabarem os rebanhos e ninguém cuidar da terra como é que vai ser?

Aqui no Morgadinho era só cabradas. Agora ando cá eu... Se acabar tudo, quero ver como vão comer. Por isso é que está tudo a ficar caro como o lume. Portugal não produz nada. Tem de vir dos estrangeiros. Quem quer o produto tem de o pagar bem caro. Quem é que quer cuidar dos rebanhos hoje em dia?

Gosta mais de nós quem vem de fora. Os turistas gostam de falar connosco e de ver o gado. Os da terra ainda fazem pouco. "Cheiras a cabra". Mas o queijo, os iogurtes e a manteiga, o leite e as carnes não nascem do céu. Tem de haver quem tome conta do gado para haver produção. E isto dá trabalho a muita gente. Doutores e fábricas e tudo.

A juventude agora, acho bem, não sou nada contra isso, só quer é estudar. Mas antigamente, os velhos e os garotos passavam o dia a trabalhar. Eu com cinco, seis anos vinha para a quinta trabalhar depois da escola. Se não fosse... carrega o macho [levanta o cajado como se fosse bater em alguém].
A juventude de agora não sabe trabalhar na terra porque não lhes ensinam. Se toda a gente tivesse um quintalzinho e aprendessem era bom. Se soubessem produzir, isto se calhar não estava assim. Isto está mau para toda a gente.

Agora aqui, nas Cortes e na Bouça há cinco pastores. Antigamente havia uns 100. Em acabando eu, isto acaba por completo. Nem para os turistas tirarem uma fotografia aqui na Serra.

Antigamente, nas Cortes e na Bouça tudo tinha gado e tudo se governava com o gado. Agora está a acabar. Porque também põem certas condições que a gente não se consegue aguentar. Verdade seja dita. Querem que a gente ponha ordenha mecânica. A gente ordenha tudo à mão, é o antigo. Então, no pavilhão onde eu tenho o gado, nem luz sequer tenho... Só um gerador para dar uma luzita para a gente ver qualquer coisa. Para botar uma ordenha mecânica é preciso um gerador muito valente ou electricidade normal, pronto. E onde é que a gente tem condições para isso? Para isso mais vale acabar com o gado. Muita gente acabou com o gado pelas leis que põem. No inverno temos de ter o gado dois meses num lado, dois meses no outro. Tínhamos que ter um pavilhão de ordenha em cada quinta, não? Mas se nem um carro lá chega... Eu daquela quinta além para baixo tenho que acarretar o leite às costas até à estrada. E é agora, que a estrada é nova. Antes levava um cântaro de 35 litros às costas e outro na mão até ao povo. Ali da Malhada do Salgueiro e da Malhada da Fonte, levava o cântaro às costas por aquela vereda. Por isso é que estou velho. Fiz isso durante 10 anos. Tínhamos que ter a ordenha feita às 10 da manhã para levar o leite a tempo de ir para a fábrica. Se não, ia à vida...

Muita gente acabou com o gado. Os velhotes não estão para isso. E os novos também não querem. E eu, qualquer dia, acabo também. Eu não tenho frigorífico. Ligo-o aonde? Até lhe sei responder... Aos tomates do chibo?

Quem põe estas leis julga que aqui é como no Alentejo em que conseguem ali ter duas ou três mil ovelhas dentro de uma quinta. Mas isto aqui não é o Alentejo, é a serra. É pedras e frio. Quem põe essas leis devia andar aqui uma semana a tomar conta do gado, no inverno. Às vezes a gente até chora, com o temporal. A gente chega a casa a pingar e a tremer com frio. Eu uso safões, que é uma coisa de pelo de cabra para pôr nas pernas. Gosto mais do pêlo de cabra porque escorre a água, enquanto que a lã da ovelha ensopa e fica pesada. Uso botas de borracha e fato de oleado. E uma capa destas que às vezes, em chegando ao curral, fica oito dias a enxugar.

Continuei com isto e gosto. Não é pelo produto. Há anos em que não se tira nada. Os cabritos é uma coisa muito sensível e que leva muito caminho... Morrem muito. O borrego é muito mais resistente. Se nascer bom, ao fim de um mês está um borrego do caraças, enquanto que o cabrito é preciso dois e três meses e às vezes encanita-se. Tanto que o leite da ovelha é muito mais forte e muito mais caro. O queijo de ovelha custa três contos o quilo e o da cabra custa um conto e tal. Vá que isso agora melhorou um bocadinho. Antes pagavam 25 cêntimos por litro. Era uma pechincha. Agora é que subiu um bocadinho. Tenho poucas ovelhas, só 15. Eu gosto mais da cabra. A ovelha só quer erva. Anda um bocado, mas se não enche a barriga de erva anda o dia inteiro a berrar, mé-mé. A cabra em andando um bocado no lameiro já fica contente, quer é roer mato. Ela própria sai do lameiro. Enquanto que a ovelha pode ficar todo o dia a comer erva. E aqui há pouca. Os nossos terrenos são fracos. Agora há, porque é a primavera. Mas qualquer dia, para o fim de Setembro, já não há nadinha, seca tudo."

in Visão, Paulo Pena

Tuesday, May 10, 2011

Islândia: A crise levou o dinheiro, mas não a criatividade



O lixo diminuiu um quarto, em Reiquiavique. As prateleiras dos supermercados deixaram de ter tantos produtos importados. Algumas famílias começaram a cultivar quintais. E a tricotar camisolas. Os Range Rovers agora chamam-se game-overs. Consumir? "Isso é tão 2007..." Os bancos faliram, as famílias entraram em bancarrota, o Estado estremeceu. Veio o FMI, mas o sistema de proteção social não mudou. Democracia: é a receita dos islandeses para sair da kreppa, o nome islandês da crise. Os banqueiros vão ser julgados. O anterior primeiro-ministro vai ser acusado. A Constituição está a ser revista por cidadãos comuns. A pequena ilha nórdica quase foi ao fundo, mas está a reinventar-se.

O sorriso de menina de Salvör esconde-lhe a determinação. Veste uma saia acima do joelho, botas altas, um casaco rosa. Tem os olhos castanhos, uma raridade nesta confluência genética de íris claras e olhos rasgados. Filha de um ex-governador do Banco Central, é professora de Ética, diretora do departamento, na Universidade da Islândia. "Nunca me interessei por política", diz, a rir, no seu novo gabinete, que ocupa desde novembro de 2010.

Ela é uma das 25 pessoas "comuns", cidadãos dos 18 aos 91 anos, eleitos pelo povo para reescrever a Constituição do país. Foi a revolução que a levou para a política. É preciso entrar em bancarrota para que um país se dê conta da falta que faz uma professora de Ética.

Salvör, 48 anos ("quarenta e qualquer coisa... ai... sim, quarenta e oito"), foi apanhada pelo turbilhão. Os bancos faliram, o Governo não teve dinheiro para os salvar. Nacionalizou-os, mas não assumiu as maiores dívidas. Vieram as histórias de compadrio, corrupção, o buraco negro de milhares de milhões de euros, a súbita e inesperada fragilidade das pessoas. A pobreza, o desemprego. "Era preciso dar uma resposta", explica Salvör.

Dois meses depois da crise, desencadeada em outubro de 2008, e de a revolução se ter instalado nas ruas de Reiquiavique a capital, com milhares de islandeses dispostos a tudo para conseguir uma solução para os seus problemas, Salvör integrou a Comissão Especial de Inquérito que reconstituiu a história da kreppa islandesa, o mais extraordinário e abrupto crash da história económica do mundo, parafraseando o Prémio Nobel da especialidade, Paul Krugman.

Eram apenas seis, na Comissão. Três especialistas em Ética, dois advogados e um economista. E muito já diz esta composição... Salvör leu todos os documentos, vasculhou a incrível história de banqueiros como Jon Asgeir Johnnesson, o maior acionista do banco Giltnir, o primeiro gigante a falir. Um multimilionário que vivia do crédito do seu próprio banco (e de outros). Tinha um iate de luxo, um avião privado e dois apartamentos de 25 milhões de dólares, em Manhattan, Gramercy Park.

Em 2 400 páginas, a Comissão de Salvör contou todas as histórias. E a população não fez orelhas moucas. O relatório todo (investigado e escrito entre janeiro de 2009 e março de 2010) foi lido, por atores, no Teatro Municipal de Reiquiavique. A leitura era retransmitida pela rádio. Mas há um resumo possível, numa página: a "teia" de relações entre os banqueiros, os reguladores e os responsáveis políticos. Uma espécie de organograma da catástrofe, com linhas retas e ligações sinuosas. Foi essa a imagem que ficou, até porque três dias depois de ser conhecido, o relatório ficou submerso pela erupção do vulcão Eyjafjallajökull, em 21 de março de 2010. "Não lixem a Islândia. Podemos não ter dinheiro, mas temos fogo", diz uma das T-shirts expostas na livraria IDA, em Reiquiavique.

Foi naquela comissão que nasceu a mais surpreendente das ideias: "É preciso repensar a República, tornar a discussão sobre as responsabilidades do poder mais democrática. É preciso empenhar as pessoas", explica Salvör, com uma expressão terna, enquanto caminha por uma sala ampla, dividida em cubículos numerados de 1 a 25, o local onde se reúnem os representantes do povo mandatados para rever a Constituição, pela primeira vez, desde que a Islândia se tornou independente da Dinamarca, em 1944.

Há ali pescadores, agricultores, professores, funcionários públicos. Cidadãos, entre os 18 e os 91 anos, que se propuseram para reescrever a lei fundamental do país, depois da crise. Salvör faz parte dos 25. "Foi a primeira vez que me candidatei a qualquer coisa", diz, a rir. Concorreram 552 islandeses. "Era uma experiência. Ninguém sabia como fazer... Os candidatos não sabiam como apresentar o seu programa. Os media não sabiam como proceder, não podiam dar espaço a mais de 500 candidaturas..." Resultado: "Usei o Facebook. Mandei mails a todos os meus contactos. Fui construindo uma rede", recorda. No dia 27 de novembro do ano passado, Salvör foi escolhida, numa eleição nacional inédita. E, na primeira reunião dos 25, elegeram-na para presidir aos trabalhos. Tem agora pouco mais de dois meses para escrever a nova Constituição islandesa, que terá de ser sufragada pelo atual Parlamento, e pelo próximo que resultar das futuras eleições legislativas (uma salvaguarda que pretende tornar a lei mais importante da Islândia imune às conjunturas políticas).
Acusar os responsáveis

Está a nevar, mas os rapazes caminham pela rua de T-shirt, e as raparigas de minissaia. O vento faz os farrapos de gelo rodopiar pelo ar, mas, ao longo da estada, no meio de quilómetros de desoladores campos de lava, há fumarolas e vapor de água fervente a subir em colunas direitas. A paradoxal Islândia não se deitou no divã do psicanalista depois do colapso financeiro. A kreppa não é o fim. Pode ser, até, um recomeço.

Embora seja a casa que Bryndis e Johannes queriam, a sala está despida de luxos. Despojada. Paredes brancas, quatro fotografias pequenas penduradas, dois sofás, um cadeirão e uma mesa que enchem de pequenos pães redondos, acabados de cozer, manteiga, café. "Desde que não piore, acho que aguentamos", diz a terapeuta da fala, de 37 anos, enquanto adormece o filho, Eysteinn, de 2 anos, no colo. O mais novo dos três filhos do casal nasceu depois do crash. E já não conheceu "o País mais feliz do mundo" (segundo o ranking do jornal inglês The Guardian) em que os irmãos, Gudmundur e Sigtryggur, de 12 e 4 anos, tiveram a sorte de nascer. Eysteinn é alérgico a derivados do leite e, também, ao mais comum dos substitutos lácteos, a soja. Agora, no supermercado, faltam os gelados, o leite e a manteiga que tolera comer. As importações caíram, dizem as estatísticas.

O marido de Bryndis, Johannes, 38 anos, é professor de Linguística, especialista em sagas medievais islandesas - um género literário que perpetua os feitos sanguinários dos primeiros colonizadores desta ilha do Atlântico Norte, a meio caminho entre a Europa e a América, encostada ao Ártico. "Antes, quando éramos mais jovens, esperávamos que o nosso tempo chegasse. Que a prosperidade viesse. Agora não...", diz, com os cotovelos apoiados nos joelhos, mãos na cara. Mas não é assim que acaba uma saga. A desilusão não parece paralisar a "geração parva" da Islândia.

Johannes saiu à rua, no frio inverno de 2008, de frigideira na mão, como milhares de outros islandeses. Fez parte da revolução. Exigiu transparência, democracia, soluções para os seus problemas. E vá algum português atrever-se a explicar a um islandês que "tristezas não pagam dívidas"...

Salvör Nordal, 48 anos, deve ter-se cruzado com Johannes, na praça Austurvöllur, a praça da revolução, fronteira ao edifício novecentista do Parlamento, o Althingi (o primeiro edifício islandês a ser construído com casa de banho). Os islandeses reencontraram-se ali, com o seu destino. O país que liderava o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, de repente, via-se num espelho deformado. Caminhando sobre o gelo frio e quebradiço. Como qualquer Argentina ou Zimbabué, endividado até ao fundo dos bolsos.

De um momento para o outro, os islandeses foram à procura dos culpados, apontaram o dedo. Mas também procuraram soluções. Houve quem inventasse um "Ministério das Ideias". E houve, também, uma reunião inédita da Thjodfondur, uma espécie de assembleia geral do povo, com mil representantes que debateram os "valores" que queriam para um novo país sair da crise.

Da comissão de inquérito saíram duas investigações. Uma judicial, aos banqueiros, que procura responsabilidades criminais. Foi a magistrada francesa, Eva Joly, que montou as bases da Procuradoria-Especial para os Crimes da Banca, liderada pelo islandês Olafur Thor Hauksson, que já deteve para interrogatório e mandou arrestar bens dos principais banqueiros que dominavam o sistema financeiro do país, antes do colapso.

Dali saiu, também, e pela primeira vez na História da Islândia, uma investigação especial à responsabilidade política. O Supremo Tribunal islandês, constituído por peritos em leis e políticos nomeados pelo Parlamento, vai reunir-se em breve para julgar o ex-primeiro-ministro Geir Haarde, acusado de incompetência e má gestão. Um terço dos funcionários da agência estatal de regulação passaram a trabalhar para os bancos que deviam fiscalizar. O Governo promoveu, até à véspera da falência, os feitos dos "novos vikings" (o cognome dos banqueiros). O Estado falhou.
'Deus abençoe a Islândia'

Os Range Rovers estão a envelhecer. Os velhos edifícios de madeira, cobertos com chapas de zinco coloridas, vão manter-se no seu lugar. Não hão de nascer arranha-céus envidraçados nos quarteirões mais característicos de Laugavegur, a avenida central de Reiquiavique, como desejavam os banqueiros. Em vez de lojas Armani, abrem apenas modestos estabelecimentos como o da Associação de Tricotadeiras da Islândia ou lojas de roupa em segunda-mão.

E os todo-o-terreno que luziam de novos estão a caminho de integrar o parque automóvel mais velho da Europa. Chamam-lhes, agora, os "game-overs". Ainda são muitos, mas já não representam a maior concentração do mundo por habitante, como até há dois anos. Rolam, matraqueando os pregos que trazem incrustados nos pneus, pela neve de Laugavegur, no passeio quotidiano de fim de semana. Thetla reddast! "No final, tudo vai correr bem."

Bryndis não repete esta crença islandesa nos amanhãs que cantam. O melhor que lhe sai, enquanto atrás de si, do lado de fora da janela da sua sala branca, a neve cai sem parar, é "a vida continua". Foi aqui, nesta sala, acabada de comprar, no outono de 2008, que percebeu. "Tudo colapsou..." Estava a pintar as paredes de branco, com Johannes, o seu marido, e tinha o rádio ligado. No início, tudo corria bem.

O número 4 da rua Gladheimar, uma vivenda geminada de dois pisos, materializava um sonho antigo. Uma sala grande, espaço para os livros de Johannes, quartos para os filhos, Gudmundur e Sigtryggur (Eysteinn haveria de nascer, em 2009). A casa velha tinha apenas 68 m2, e ainda rendeu um lucro de 37 mil euros. Mas o rádio, naquele 8 de outubro de 2008, tinha más notícias para Bryndis e Johannes, enquanto pintavam a sala.

O primeiro-ministro Geir Haarde, líder do Partido da Independência, conservador de direita, que ganhou todas as eleições legislativas na Islândia desde 1946, está a discursar em direto. No final, diz uma frase que deixa Bryndis, Johannes e o país inteiro de olhar parado, em suspenso: "Deus abençoe a Islândia." De lá para cá, o casal concentra-se em "não permitir que a situação afete as crianças". Deixaram de ir comer fora, "cinema só uma ou duas vezes por ano". Alugaram um quintal, onde cultivam "saladas, cenouras, batatas". Para pouparem no supermercado, sim, mas também para "passar às crianças o valor da terra".

A frase de Haarde deixou os islandeses perplexos. Einar Mar Gundmundsson está em Copenhaga a falar sobre a sua obra literária e recebe a mensagem. "Deus abençoe a Islândia." Mete-se num avião para Reiquiavique, no dia seguinte. Thór Saari está no seu gabinete da OCDE, na Universidade de Reiquiavique, e vê a expressão preocupada de Haarde, na televisão. Diz: "O homem parece fora de si... Que discurso é este?" Raghneidur está grávida, sentada no sofá da sua sala, em repouso, e liga para o marido Ólafur. "O que é isto? O que se passa?" Lilja Mosesdóttir veio para Reiquiavique, a macrocéfala capital, que concentra quase metade da população, com um doutoramento em Regulação Financeira e a promessa de um contrato na Universidade da Islândia. Aos 48 anos, esta economista deixou a sua carreira universitária no Norte do país para ouvir, incrédula, a funcionária da Universidade dizer-lhe que o contrato não será assinado. Não há dinheiro.
De manifestante a deputada

Os bancos faliram. Foi como se uma praga do Velho Testamento atingisse a economia islandesa: o Giltnir, o Kaupthing e o Landsabanki, juntos, valiam dez vezes o Produto Interno Bruto do país. Como peças alinhadas de um dominó, as casas desvalorizaram-se, em média 30% (a de Johannes e Bryndis perdeu 31 mil euros do seu valor, em três dias), ao mesmo tempo que os empréstimos subiam (20%, no mínimo). A inflação aumentou e arrastou os empréstimos bancários para máximos históricos, que se manterão para sempre, a menos que uma vaga de deflação, muito improvável, corrija a subida. O Governo desvalorizou a coroa islandesa para absorver o impacto, mas isso não ajudou nada a vida de quem tinha empréstimos em moeda estrangeira (ienes, euros, dólares ou francos suíços). Os preços subiram. Os salários perderam valor. Quase metade das empresas faliu. E o contrato de Lilja foi-se, no turbilhão. A professora universitária passou a integrar a mais inconcebível das novas estatísticas islandeses: 9% de desempregados, num país que sempre vivera em pleno emprego.

Johannes fez como Lilja, Thór, Einar Már e milhares de outros. Pegou numa frigideira da sua cozinha nova e veio para a rua. Bater em tachos e panelas foi a forma que os islandeses encontraram para protestar contra esta espécie de apocalipse que lhes trouxe o destino. O destino e um grupo pequeno de banqueiros e políticos.

Hoje, dois anos e meio depois da "revolução das frigideiras", Lilja recebe-nos à porta do Althingi, o Parlamento islandês. É deputada.

Não há detetores de metais nem polícia. O funcionário trata a deputada pelo seu primeiro nome. E Lilja mostra-nos como viu, do lado de fora, o que agora vê por dentro. Durante as manifestações, os deputados hesitavam em cruzar o passadiço de vidro que liga o velho edifício ao novo anexo onde se situam os gabinetes. "Houve quem atirasse pedras, mas os vidros são à prova de bala..." Com uma voz pausada e suave, Lilja Mosesdóttir conta como passou de manifestante a eleita do povo: "A economia colapsou em três dias. As pessoas tornaram-se ativas. Muito ativas... Deixei as minhas pesquisas académicas e fui ler tudo o que havia sobre políticas de reação à crise." Na pequena sala de sessões do Althingi, as paredes são verdes e azuis. As cadeiras estão tão juntas que nenhum deputado se pode levantar, sem pedir licença ao colega do lado. Sentam-se aqui 63 eleitos, uma representação à medida deste país de 320 mil habitantes. Os lugares são rotativos. Os partidos não mandam na distribuição das cadeiras. Cada lugar é sorteado, anualmente, o que faz com que Lilja, que começou por integrar a bancada dos Verdes de Esquerda, e agora é independente, possa ter como vizinhos deputados da Aliança Social-Democrata, ou do Partido da Independência, ou do Partido do Progresso (ruralista, de direita), ou do Movimento, a nova formação que emergiu dos protestos de 2008.
Humor na 'fortaleza de marfim'

Thór Saari é o presidente do Movimento. Mas esse também é um cargo que roda, todos os anos. O Movimento é, aliás, um partido com os dias contados, explica Saari: "Temos um programa de três pontos: aprofundar a democracia; resolver o problema das famílias endividadas; e acabar com o desemprego. Ao fim de dois mandatos, se conseguirmos cumprir o nosso programa, acabamos. Se não conseguirmos, acabamos também", ri-se Thór que, tal como Lilja, é economista, especialista em dívida, e trocou as sebentas pela política, no calor da revolução de 2008. Trabalhava para a OCDE, em Reiquiavique, e já tinha sido quadro do Banco Central islandês e do Instituto de Gestão da Dívida. Encontrou-se com a rua. "Conhecemo-nos todos aqui", conta Thór Saari. "Passámos aqui seis dias e seis noites, sem sair, até que o Governo se demitiu. Uma revolução pacífica, na rua, no inverno, na Islândia... Ninguém pensava que fosse possível. Mas foi." Entre o dia 8 de outubro (quando Bryndis pintava a sua sala e o primeiro-ministro disse "Deus abençoe a Islândia") e o dia 6 de janeiro de 2009, data em que Haarde se demitiu e convocou novas eleições, a praça Austurvöllur foi o verdadeiro Parlamento. Primeiro, surgiram as frigideiras e o protesto sem programa, o choque puro e simples. Depois, fez-se um cordão humano, mais simbólico que ameaçador, à volta do Althingi, para impedir os deputados de entrar. A seguir, houve quem hasteasse uma bandeira da cadeira de supermercados Bónus (um porquinho sorridente) no mastro da bandeira nacional - porque essa cadeia pertence ao principal vilão islandês do momento, Jon Asgeir Jhanesson, o tal milionário a crédito. À medida que se iam conhecendo os contornos da falência dos bancos, e da promiscuidade entre a alta finança e a política, houve quem passasse à ação direta: o carro do primeiro-ministro foi apedrejado, os banqueiros foram atingidos com ovos, as suas casas foram pintadas de vermelho.

Thór chegou ao Parlamento, "a fortaleza de marfim", como lhe chama, no dia 25 de abril de 2009, e, com ele, uma maioria de esquerda, uma coligação entre social-democratas e Verdes de Esquerda. O Governo é liderado por Jóhanna Sigurdardóttir, social-democrata de 68 anos, lésbica. A aliança que apoia o Governo é frágil, e acaba de resistir, por apenas dois votos, a uma moção de censura, no Parlamento. Thór Saari e Lilja Mosesdóttir votaram para que o Governo caísse.

No Althingi senta-se, também, o antigo responsável ministerial pela banca. "Arrasta-se pelas paredes, calado. É um tipo simpático, mas, depois do que aconteceu, não pode voltar a ser um político digno de confiança", observa Saari.

O Movimento diz-se "acima do espetro", nem de esquerda nem de direita. E Thór garante que não é só isso que o separa dos políticos tradicionais. "Quando vim para aqui, estava a preparar um doutoramento em Filosofia. E reparo, todos os dias, que os políticos não pensam em termos de certo ou errado. Pensam na dicotomia possível versus impossível. Nós não somos políticos." A política islandesa foi tomada por não-políticos. Jon Gnárr, por exemplo, era um punk-rocker e comediante, famoso pelas suas rábulas na televisão. Quando fundou o Melhor Partido (um nome que deve render bons direitos de autor), ninguém o levou a sério. Quando ganhou, com 34% dos votos, a Câmara de Reiquiavique, ninguém pensou que se mantivesse lá por muito tempo. Quando desfilou, vestido de Rainha de Inglaterra, na parada gay de 2010, muitos acharam que estava acabado. E quando, na semana passada, se recusou a receber o comandante de uma embarcação militar alemã, e declinou a autorização para que o navio (que transportava um helicóptero de busca e salvamento que seria emprestado à Islândia) lançasse âncora no porto principal da capital islandesa, os esgares multiplicaram-se. Gnárr é um "anarco-situacionista" que faz política a rir, no meio do "teatro do absurdo" que, nas suas palavras, é a política do país.
Lápis contados

Absurdo. A megaloja de materiais de construção Bauhaus está pronta há dois anos, ali a dois passos de Reiquiavique, mas nunca chegou a abrir. Na principal autoestrada que sai para o Norte, Fellshlid Mosfellssdeit era o sítio onde as pessoas soltavam os cães para um passeio pelos campos. Vieram os bancos e as construtoras e nasceram os arruamentos. O alcatrão negro está impecável. As rotundas distribuem as ruas. Mas não há destino. Só alcatrão e rotundas e postes de eletricidade. Os lotes de terreno ladeiam esta cidade sem casas. Uma grua ficou ali, esquecida, entre as placas da Remax com o "vende-se" agora menos apelativo do negócio imobiliário.

"O setor da construção foi dizimado, em 2008", explica Thorolfur Mathíasson, diretor do departamento de Economia da Universidade de Reiquiavique, no seu gabinete, onde há um quadro cheio de rabiscos com gráficos de curvas acentuadas. Ao contrário da construção, as pescas e a energia estão a trazer para cima os indicadores da Islândia.

A atividade vulcânica é aproveitada para fornecer água quente a todas as casas (a água fria nem sequer tem contador doméstico). E, também, para fazer funcionar as gigantescas fundições de alumínio, exploradas por multinacionais americanas, que rivalizam com a pesca, no topo das exportações islandesas.

Energia foi aquilo que o assunto Icesave retirou, na opinião de Mathíasson, ao país para sair, ainda mais depressa, da crise. O caso arrasta-se, depois de, por duas vezes, em referendo, os islandeses terem recusado o acordo estabelecido entre o seu Governo e a Inglaterra e a Holanda. O Icesave era uma filial online do Landsbanki, que faliu, em outubro de 2008. Cerca de 400 mil depositantes britânicos e holandeses ficaram com o seu dinheiro congelado (cerca de 5 mil milhões de euros, no total). O Reino Unido aplicou a sua Lei Antiterrorista para forçar a Islândia a pagar. E, como não teve êxito, resolveu adiantar o dinheiro (como o Governo de Haia) do seu próprio orçamento, enviando a fatura para Reiquiavique. O Governo islandês procurou negociar um pagamento faseado. Mas o Presidente da República (ver entrevista) não assinou o acordo, levando o assunto a referendo. A população rejeitou aquela solução.

Como consequência, a Islândia não pode pedir dinheiro emprestado nos "mercados". Tem de viver com empréstimos bilaterais (China, Polónia) e com o empréstimo do FMI, negociado em 2008.

O principal negociador do FMI na Islândia foi o mesmíssimo Poul Thomsen, o dinamarquês de olhos azuis que aterrou em Lisboa há poucas semanas. Lilja Mosesdóttir reuniu-se com ele e considera-o "muito bem preparado" e até "permeável às reivindicações do povo". Na Islândia foi assim... "Em Portugal, também pode ser, se as pessoas lutarem pelo que querem", aconselha Lilja.

Mathíasson também considera "justa" a abordagem do FMI. "Impuseram uma redução do défice, mas não estabeleceram condições para os cortes. Isso acontece, talvez, porque o FMI não tem de convencer o eleitorado, como tem a chanceler alemã, Ângela Merkel..." Na Islândia, os cortes orçamentais preservaram o sistema de proteção social. No hospital de Bryndis, agora, há que "pensar duas vezes antes de fazer uma fotocópia". Os lápis estão contados, sim. Fecharam serviços públicos (hospitais e escolas), mas não houve cortes nos apoios sociais, nem privatizações. Pelo contrário, o welfare islandês foi elogiado pelo FMI, e até cresceu, nestes últimos anos (ver caixa). Há pressões para privatizar as empresas energéticas, mas o Governo opõe-se e, garante Sälvor Nordal, a futura Constituição vai defender que a propriedade dos setores essenciais (como a energia) seja pública.

Mesmo assim, o país está a crescer economicamente. "Há uma resiliência silenciosa da economia", explica Mathíasson.
Portugueses e islandeses: as diferenças

Talvez esta "resiliência silenciosa" esteja nos genes do povo, também.

Paulo Cardoso vive em Reiquiavique desde 1997. É um dos pouco mais de 600 portugueses registados na Islândia (já foram cerca de mil). Foi estudar. Apaixonou-se por uma islandesa. Casaram. É especialista em sistemas informáticos para a banca, mas continua a frequentar pós-graduações e mestrados (Relações Internacionais, Gestão). Compara, assim, os dois povos que tão bem conhece: "A população, aqui, é muito ativa. Os portugueses toleram muito... Aqui, não há tanta tolerância como em Portugal." Esta impressão faz sentido aos olhos de uma islandesa com o trajeto de vida inverso ao de Paulo. Gudlaug Run Margeirsdóttir estudou em Portugal, licenciou-se em Literatura, em Coimbra. Apaixonou-se por um português. Casaram. Só regressou, de vez, a Reiquiavique em 2007. E vê assim as diferenças entres estes dois pequenos povos, com um acentuado "complexo de inferioridade": "Os islandeses são menos complacentes. No dia a dia, os portugueses são mais críticos. Os islandeses são mais reservados. Em Portugal, pode dizer-se que 'isto é uma porcaria' e continuar a gostar de viver assim. Parece que os portugueses têm medo de ser um pouco mais agressivos. Às vezes, pergunto-me por que os portugueses não agem mais em vez de falarem tanto..." Gudlaug é tradutora literária. Traduziu para português o Nobel islandês, Halldór Laxness, autor do romance Gente Independente, que caricatura a obstinação e o tradicionalismo rural dos islandeses. Traduziu, também, o mais celebrado dos autores contemporâneos, Einar Mar Gudmundsson.

Einar vive nos arredores de Reiquiavique, numa vivenda a meia encosta de uma montanha. Tem um anexo, de madeira, ao lado da casa, onde trabalha. As paredes estão forradas com lombadas. Há livros numa mesa enorme de madeira. Há originais datilografados pelo chão. E um Saramago traduzido para islandês numa das prateleiras altas. "Jantámos juntos, uma vez", recorda Einar, enquanto nos serve café por um termo.

Einar fez quatro discursos, no improvisado palanque da praça da revolução. Sempre que falava, lia. Na primeira vez, estava a seu lado o dirigente sindical dos eletricistas, Gudmundur Gunnarsson, pai da cantora Björk. Entrou, a fundo, na revolução. Integrou comités de debate. Reuniu-se com especialistas. Foi um dos rostos da organização dos protestos. E continuou a escrever. O seu Livro Branco, entre o ensaio e a ficção, é o primeiro relato da crise. E foi formando convicções. "Isto não é uma questão judicial, é uma questão moral. Não tenho qualquer esperança nos inquéritos aos banqueiros ou ao primeiro-ministro." Viu "felicidade" nas pessoas que consigo discutiam. E novos valores: "O consumismo deixou de ser o mais importante. Agora, por toda a cidade, há gente que não se conhecia e que partilha ideias e projetos."

O lixo diminuiu um quarto, em Reiquiavique. Mas aumentaram as doenças relacionadas com o stresse: ataques cardíacos, AVC. Os doentes afásicos de Bryndis não podem ser sujeitos a qualquer tipo de conversa sobre bancos e política, porque "isso torna a terapia mais difícil, se existe stresse".

Mas há coisas que nunca mudam. O cartão de crédito é indispensável em qualquer bolso de islandês. Paga-se a crédito a cerveja que se bebe na discoteca, o táxi, o restaurante, o supermercado. Isso é "tão 2007", diz a expressão crítica, inventada para afastar os fantasmas do passado.

"Aprendemos devagar", ri-se Ragnheidur Birna Bjornsdóttir, 36 anos, especialista informática da Segurança Social. Na sua casa, a crise não foi sentida como na maioria dos lares islandeses. Ólafur, o marido, de 46 anos, gestor, explica porquê: "Sempre soube que os bancos não são nossos amigos. Estão a tentar fazer negócio. Não posso confiar cegamente neles." Quando os bancos faliram, o casal amortizou a hipoteca e pôde seguir com a vida em frente. Mesmo que a sua expressão se carregue, ao falar da corrupção endógena "nesta pequena sociedade em que toda a gente se conhece", Ólafur mantém o humor. E Ragnheidur cita a frase que dá alento, mesmo que o frio gele os ossos e a dívida se avolume, thetta reddast, "no fim, tudo vai correr bem".

Afinal, riem-se, à mesa da sua sala, nos arredores da capital, "talvez ainda sejamos a nação mais feliz do mundo..."

in Revista Visão, Paulo Pena

Thursday, April 28, 2011

Porque a democracia é mais importante para a nossa sociedade que os mercados.

'Podemos dizer que esta foi uma crise financeira. Mas também podemos dizer que foi, fundamentalmente, uma crise democrática. Quando decidi colocar a questão em referendo, disse que ao olhar para todas as análises fiquei, no fim, com uma escolha: entre as exigências dos mercados financeiros, por um lado, e a democracia, por outro, eu tenho de escolher a democracia. Porque a democracia é muito mais fundamental para a nossa sociedade do que os mercados.'

Presidente Islandês Ólafur Ragnar Grímsson, PhD em ciência Política, em entrevista para a Revista Visão (28 Abril 2011)

Wednesday, April 27, 2011

Innovation Competency Model

To build innovation muscle, companies must include innovation in their competency models. A competency is a persistent pattern of behavior resulting from a cluster of knowledge, skills, abilities, and motivations. Competency models formalize that behavior and make it persistent. They prescribe the ideal patterns needed for exceptional performance. They help diagnose and evaluate employee performance. It takes a lot of work to develop one, but it's worth it.

Here is a nice example of an innovation competency modeled developed at Central Michigan University through a collaboration of authors. It could be customized to address the specific needs of a company or industry.

Core Competencies of Innovation

Creativity

* Generating Ideas: Coming up with a variety of approaches to problem solving.
* Critical Thinking: Logically identifying how different possible approaches are strong and weak, and analyzing these judgments.
* Synthesis/Reorganization: Finding a better way to approach problems through synthesizing and reorganizing the information.
* Creative Problem Solving: Using novel ideas to solve problems as a leader.

Enterprising

* Identifying Problem: Pinpointing the actual nature and cause of problems and the dynamics that underlie them.
* Seeking Improvement: Constantly looking for ways that one can improve one’s organization.
* Gathering Information: Identifying useful sources of information and gathering and utilizing only that information which is essential.
* Independent Thinking: Thinking ‘outside the box’ even if this sometimes may go against popular opinion.
* Technological Savvy: Understanding and utilizing technology to improve work processes.

Integrating Perspectives

* Openness to Ideas: A willingness to listen to suggestions from others and to try new ideas.
* Research Orientation: Observing the behavior of others, reading extensively, and keeping your mind open to ideas and solutions from others. Reading and talking to people in related fields to discover innovations or current trends in the field.
* Collaborating: Working with others and seeking the opinions of others to reach a creative solution.
* Engaging in Non-Work Related Interests: Being well-rounded and seeking information from other fields and areas of life to find novel approaches to situations.

Forecasting

* Perceiving Systems: Acknowledging important changes that occur in a system or predicting accurately when they might occur.
* Evaluating Long-Term Consequences: Concluding what a change in systems will result in long-term
* Visioning: Developing an image of an ideal working state of an organization.
* Managing the Future: Evaluating future directions and risks based on current and future strengths, weaknesses, opportunities and threats.

Managing Change

* Sensitivity to Situations: Assessing situational forces that are promoting and inhibiting an idea for change.
* Challenging the Status Quo: Willingness to act against the way things have traditionally been done when tradition impedes performance improvements.
* Intelligent Risk-Taking: Being willing and able to take calculated risks when necessary.
* Reinforcing Change: Encouraging subordinates to come up with innovative solutions. Recognizing and rewarding those who take initiative and act in a creative manner. Facilitating the institutionalization of change initiatives.

in Innovation in Pratice

Tuesday, April 26, 2011

Hard Skills + Soft Skills = Job

O desemprego está a crescer na faixa etária mais produtiva: dos 15 aos 30 anos.

É nesse periodo que somos capazes de ser genuinamente criativos e com isso, criar modelos disruptivos de negócio.

É simples a formula de sucesso em que tropecei, e serve de título a este post: A conjugação da formação formal com a experiência de vida, mesmo que ainda curta, permite compreender o equilibrio entre a vocação e a competência.

Não devemos ter receio em associar a nossa experiência rural ou no acompanhamento de colónias de férias com uma licenciatura em gestão ou em engenharia química. É nessa conjugação que encontramos o caminho!

in infoex.pt 18 DEZ 2010


Thursday, April 21, 2011

6 escritórios verdadeiramente ecológicos



Nem sempre é fácil manter a concentração durante oito horas de trabalho. A posição sentada prolongada, a falta de ar puro e o stress do trabalho contínuo são factores que precipitam a chegada do cansaço. No entanto, há sítios que, segundo o site Inhabitat, o podem ajudar a sentir-se inspirado quando está a trabalhar e que em nada descuram as preocupações com o ambiente.

O site Inhabitat seleccionou os seis escritórios verdadeiramente ecológicos de todo o mundo, que ultrapassam a barreira das quatro paredes e privilegiam o contacto com a natureza. Aqui, a concentração pode atingir níveis elevados.

Do escritório “empoleirado” no cimo de uma colina e rodeado de árvores, onde a vista não poupa a elogios, até a um espaço pré-fabricado modular construído com materiais reciclados, há opções para todos os gostos.

1. Edifício verde por dentro e por fora

O edifício da Infrax, fornecedor de serviços de utilidade pública (electricidade e gás natural, por exemplo), na Bélgica, foi construído especificamente para reduzir o consumo de energia e melhorar consideravelmente o conforto dos funcionários. Para tal, combina a tecnologia com o design, de forma aprimorada. A obra, com a assinatura da Crepain-Binst Architecture, já recebeu várias distinções que lhe valeram reconhecimento a nível mundial.

2. Um escritório mesmo à porta de casa

Criado especialmente para o crescente número de teletrabalhadores ou para quem não necessita de ocupar um posto de trabalho cinco dias por semana, o OfficePod afirma-se como um dos conceitos mais inovadores no campo do ambiente de trabalho.

Desenvolvido pelo atelier britânico Tatle + Hindle, o escritório caracteriza-se por oferecer um ambiente de trabalho produtivo e agradável, mas também por ser um espaço ecológico e económico. Idealizado para ser colocado no jardim, o OfficePod conjuga tudo o que é preciso para trabalhar, visando reduzir o tempo das deslocações casa-trabalho, aumentar a flexibilidade e tempo disponível, reduzir a emissão poluentes e aproveitar racionalmente o espaço urbano.

3. Num patamar acima da ecologia

Se pretende dar à sua empresa uma nova dimensão sem esquecer a vertente sustentável do espaço, construir um escritório sobre palafita (construção sobre estacas) pode ser a solução. Foi precisamente o que fizeram os arquitectos da Cheungvogl, responsáveis por um escritório de Nunnmps, em Chicago, que procuraram minimizar a pegada de carbono proveniente da sua construção e preservar o estado natural do local. De um modo geral, dois terços do edifício são subterrâneos e o restante está sobre palafita.

4. Trabalhar tranquilamente rodeado de árvores

Localizado em Chuckanut Bay, em Washington, a casa do consultor Peter Frazier é um lugar tranquilo para se trabalhar e até para se viver. Aqui tudo foi pensado ao pormenor, desde o mobiliário, como mesas e cadeiras que foram feitas para garantir o maior conforto e comodidade. A casa dispõe de uma sala, cozinha, quarto e casa de banho e de uma vista irrepreensível.

5. Escritório 100% reciclado construído por estudantes

Cinco estudantes da Academia de Arte da Califórnia – Justin Ackerman, Mary Telling, Justin Hanan, Shaum Mehra e Shanay Moghbel – desenvolveram um escritório pré-fabricado, pondo à prova as suas capacidades de design e as suas preocupações com o ambiente. Com dois andares e totalmente construído com materiais reciclados, o projecto valeu-lhes a distinção do Instituto Americano de Arquitectos (AIA East Bay) pela sua aposta sustentável.

6. Edifício envidraçado que garante luz natural

Pelas suas características, a sede do Banco Europeu de Investimentos, no Luxemburgo, projectado pela empresa alemã Ingenhoven Architects, ganhou o primeiro lugar no prémio Emilio Ambasz de arquitectura sustentável para edifícios internacionais. Constituído por uma estrutura de metal com vidros em ziguezague, o edifício foi premiado devido à sua vertente ecológica, à eficiência energética e à disposição das salas que promovem a interacção e comunicação.

Como o edifício é inteiramente coberto por vidro, a luz do dia penetra por todos os ângulos. As janelas flexíveis permitem que os funcionários controlem individualmente a sua abertura, assim como a temperatura e iluminação. O edifício possui jardins de Inverno e de Verão, tendo recebido a certificação de “Muito Bom” no programa britânico BREEAM (Building Research Establishment Environmental Assessment Method).

Confira as fotos dos seis escritórios, no artigo original.

in greensavers.pt

Friday, April 15, 2011

Este país (não) é para velhos




Os grandes desafios demográficos da actualidade estiveram em análise numa conferência realizada a 6 de Abril na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Perante a constatação de que Portugal não renova as suas gerações há 28 anos, vários especialistas nas áreas económica e demográfica defenderam a adopção urgente de medidas capazes de contrariar o impacto negativo do envelhecimento na economia nacional. Portugal apresenta actualmente um défice de 1,2 milhões de crianças e jovens e, em crise, a quebra da natalidade só pode agravar-se.

A Saúde, a Segurança Social e o mercado de trabalho, concretamente ao nível da empregabilidade, são as três áreas mais afectadas pela evolução demográfica em Portugal nas últimas décadas, concluíram os especialistas, perante as dezenas de participantes na conferência “Economia, Demografia e Sustentabilidade”, organizada pela Associação Portuguesa de Famílias Numerosas, em colaboração com o OJE. O economista Fernando Ribeiro Mendes, o ex-ministro das Finanças, Luís Campos e Cunha e o presidente do ISEG, João Duque, forma alguns dos convidados a debaterem os efeitos do (des)incentivo à natalidade em Portugal, analisando as actuais políticas locais e nacionais, face ao progressivo envelhecimento da população. Um número redondo reforçou a importância desta reflexão, muitas vezes desvalorizada por não parecer visível no curto prazo: Portugal não pratica a renovação das suas gerações há 28 anos.

Primeiro filho cada vez mais adiado
As alterações na estrutura demográfica são hoje uma questão complexa que depende de várias dinâmicas, e não apenas das três variáveis básicas: fecundidade/natalidade; mortalidade e migrações. Para Cristina Sousa Gomes e Maria Luís Rocha Pinto, docentes na área de Ciências Sociais, Jurídicas e Políticas da Universidade de Aveiro, apesar de se perspectivar um crescimento populacional nos países menos desenvolvidos, “o século XXI será de envelhecimento”. Para as duas especialistas em Demografia, “procurar evitar o declínio da população é uma questão eminentemente política”.

O maior impacto demográfico incide no género feminino, dizem, e Portugal não é excepção: as mulheres portuguesas têm vindo, progressivamente, a adiar o nascimento do primeiro filho e, de acordo com dados de 2011 do INE, a descendência média diminuiu no país de 2.99, em 1971, para 1.32 filhos por mulher, em 2009.

A partir de vários dados compilados pelo Eurostat (relativos aos 27 de UE), pelo Eurobarómetro e pelo INE, as demógrafas concluem que o emprego feminino em Portugal (20-64 anos) era superior (66.1%) ao da EU (62.5%); e que o emprego de mulheres (25-54 anos) com pelo menos um filho, no nosso país, (75.2%) ultrapassava também a média europeia (68.2%). Já o emprego feminino em part-time era inferior em Portugal (15.2%), face à UE (31.4%).

Numa análise por escalões etários, verifica-se que o emprego feminino aos 65-69 anos era, em 2009, mais elevado em Portugal (21.8% ) que na UE (7.4%); tal como aos 60-64 anos (33.8%, contra os 22.8% da UE); e aos 55-64 anos, escalão em que atingia, no nosso país, os 42.7.8%, enquanto a média europeia se situava nos 37.8%.

Note-se que o número médio de horas de trabalho semanal era também superior em Portugal (36 horas), relativamente à UE (33 horas). E que as mulheres portuguesas abandonam o mercado de trabalho, em média, mais tarde (62.3 anos) que as da UE (60.8 anos), tendo por base os dados de 2009.

Por outro lado, o apoio social a crianças até aos dois anos de idade era superior em Portugal (33%) em relação ao da EU (28%), mas esse mesmo apoio, quando atribuído a crianças desde os três anos até ao final da escolaridade obrigatória, era inferior em Portugal (78%) face à EU (83%).

Quanto a formação, o abandono feminino precoce do ensino (18-24 anos) era mais intenso em Portugal (26.1%) que na UE (12.5%); e a percentagem de mulheres, entre os trinta e os 34 anos, com nível de formação superior era significativamente menor em Portugal (24.8%) que na UE (35.7%).

Conciliar família e trabalho é essencial
Perante esta conjuntura pouco favorável, os principais motivos para os casais não desejarem ter mais filhos prendem-se com os entraves que as mulheres sentem em conseguir integrar o mercado de trabalho; com as dificuldades na conciliação família-trabalho; com os custos associados ao crescimento das crianças; e com as dificuldades relacionadas com a sua educação. Problemas de saúde, na gravidez, parto e cuidados infantis são outros factores mencionados.

É fácil perceber que à medida que a esperança de vida continua a aumentar, o envelhecimento tenderá a acentuar-se. Apesar de 2009 ter trazido “um ligeiro crescimento da fecundidade no contexto europeu, continua, globalmente longe de assegurar a substituição de gerações”, alertam as docentes da Universidade de Aveiro.

No nosso país, “as mudanças na sociedade foram rápidas e abruptas” e, em 2009, continuou a verificar-se o declínio da fecundidade, “com uma expressão diferenciada no território”.
Segundo Maria Rocha Pinto e Maria Cristina Gomes, “têm havido tentativas europeias no sentido harmonizar e incentivar as actuações dos Estados, junto da população”, mas a diversidade de realidades é acentuada, em função das políticas sociais de cada país.

Num contexto de crise que “pode criar alguma retracção” na evolução positiva da estrutura demográfica nacional, importa questionar até que ponto as medidas tomadas não são avulso e integram uma política de fundo e em que medida existe uma continuidade e articulação dessas políticas no campo social.

Considerando que a substituição de gerações está comprometida, as políticas locais a favor da natalidade são cada vez mais importantes. Mas “ainda não há noção do seu verdadeiro impacto porque tal não está estudado cientificamente”, acusam as demógrafas: “seria extremamente caro, mas era muito importante que Portugal tivesse um estudo científico sobre fecundidade, percebendo, por exemplo, o impacto das políticas já implementadas pelas autarquias, ao nível local. Mas até agora não foi possível perceber com clareza o impacto dessas medidas”, avançou Maria Rocha Pinto.

Em Portugal, e face à tendência que dita que as mulheres têm menos filhos do que os que desejariam – particularmente aquelas que não têm qualquer criança ou apenas uma -, “importa concretamente pensar na resposta aos anseios de fecundidade”. Importa ainda “compreender os padrões e tendências da fecundidade, de forma a adequar as políticas garantindo os seus efeitos, sobretudo “quando se atende às dificuldades e aos contrastes sociais que nos distanciam da média europeia”.

Portugal precisa de empreendedores
Defendendo políticas urgentes de incentivo à natalidade, o presidente do ISEG, considera que uma população envelhecida tem um perfil “menos empreendedor e menor propensão para o risco e para a inovação”. Embora contrária às necessidades do País, esta realidade requer que a sociedade se adapte, alterando as suas ofertas de consumo, por exemplo, no sector do turismo, sugere João Duque.
Por outro lado, a população mais idosa enfrenta maiores exigências ao nível da adaptação à tecnologia e “para os mais jovens haverá mais competitividade”, conclui o economista.

“Hoje estamos mais velhos e, sobretudo, mais sozinhos”, acrescenta Ribeiro Mendes, recordando os elevados índices de doença crónica e dependência que se registam no País.

Portugal construiu “direitos para o futuro que não podem ser garantidos” e tem hoje um modelo de segurança social “baseado na dívida”, que “não é sustentável: os direitos futuros dos pensionistas vão vencer algum dia e não haverá dinheiro para todos”, critica.

Sumarizando as diferentes funções que a segurança social conjuga – é “um mealheiro para poupança, é um seguro para eventualidades futuras e é um mecanismo de correcção de desigualdades”, o economista considerou que a correcção de desigualdades sociais, levada a cabo por “uma obsessão pela convergência com o salário mínimo” antes de ter sido criado o Indexante de Apoios Sociais, foi exagerada. Ribeiro Mendes defendeu mesmo que a idade mínima para a reforma poderia ser aumentada. Esta alteração, provavelmente dos actuais 65 anos para os 67 anos, deverá constituir uma das soluções para garantir a sustentabilidade do nosso sistema de segurança social, sustentou.

Sem uma “almofada colectiva para segurar o sistema de pensões”, as empresas devem reforçar o seu compromisso com a RS, dando mais benefícios sociais, disse ainda o professor universitário especialista em responsabilidade social das organizações: “temos de pedir mais compromissos às empresas em matéria de responsabilidade social”, paralelamente à participação pública, que deve ser mantida, e á responsabilidade individual, que tem de ser reforçada, defende Ribeiro Mendes.

Mas, num país que não renova as suas gerações há quase três décadas onde a população activa está necessária e progressivamente mais envelhecida, as empresas enfrentam dificuldades acrescidas “na aquisição de novos conhecimentos”, afirma, por sua vez, Luís Campos e Cunha. Para o ex-ministro das finanças, parte do défice público “está relacionado com o envelhecimento” e os reformados podiam ter um papel mais activo nas empresas. “O aumento da despesa pública na Saúde e na Segurança Social têm forte impacto nas Finanças Públicas”, recorda.

Sublinhando que os desafios da demografia se colocam a longo prazo, Campos e Cunha acredita que “a democracia está pouco preparada para lidar” com esta situação, já que “os Governos duram quatro anos, e as alterações demográficas podem demorar quarenta.” Ao contrário de antigamente, em que ao número de filhos correspondia força de trabalho na família, “hoje quer-se dar uma boa educação aos filhos e uma boa preparação para a vida”. Consequentemente, “as famílias com mais filhos são mais pobres, porque investem na educação dos filhos e estes são um encargo até aos vinte ou trinta anos”.

Jovens e idosos devem trabalhar juntos
Já para Pedro Pita Barros, professor de Economia e especialista em Economia da Saúde, “o envelhecimento não é o principal causador do aumento da despesa na Saúde”.

Na sua opinião, o principal desafio nesta área reside em encontrar respostas para as diferentes necessidades, que melhorem a utilização dos mecanismos actualmente existentes. Segundo Pita Barros, o envelhecimento explica apenas treze a quinze por cento do aumento da despesa pública com a saúde. O crescimento do rendimento médio dos portugueses nas últimas décadas e a imparável inovação tecnológica aplicada à área da medicina são os grandes drivers desse aumento da despesa. Esta teoria de Pita Barros assenta numa leitura correcta das estatísticas, que “têm servido para demonstrar que a despesa com saúde cresce a partir dos 65 anos, mas isso só acontece porque antes a esperança de vida terminava aos 65 anos e as despesas eram feitas antes dessa idade”, explica. Com o aumento da esperança de vida, “as despesas tendem a avolumar-se após essa idade, já que tradicionalmente se gasta mais nos últimos dois anos de vida”, o que significa que “apenas foram transferidas para mais tarde”.

Em todos os casos, “faltam ainda muitas respostas para um envelhecimento saudável, em que os cuidados sejam menos prestados pelos hospitais e mais pela sociedade”, adverte.
Mas não é só na saúde que é necessário reequacionar políticas. Em matéria de recursos humanos, e como sugere Rita Campos e Cunha, as empresas “têm de apostar em políticas que passam pela compatibilização entre trabalho e família, pela melhor integração entre colaboradores jovens e velhos, para transmissão de conhecimentos, e pela motivação dos mais novos, que vêem as suas expectativas de carreira afectadas pela presença dos colaboradores mais velhos até mais tarde”. Para a professora de Gestão de Recursos Humanos, é também necessário “reformular as políticas de Reforma, evitando a estagnação dos mais velhos”.

Concretamente para esta faixa etária, Rita Campos e Cunha sustenta a introdução de novos métodos de formação, de competências e de mecanismos de avaliação do desempenho nas empresas e propõe a criação de pacotes de benefícios sociais para os colaboradores mais velhos, a par da atribuição de funções menos stressantes, da flexibilização do horário de trabalho e da contratação de reformados. Para os colaboradores jovens, a especialista defende que parte do seu trabalho pode ser realizado em regime de teletrabalho ou em part-time, com horários flexíveis. Os jovens devem ter a possibilidade de coordenar as suas tarefas com as férias escolares e têm direito a baixas de parto mais flexíveis, defende ainda.

Os imigrantes são outro grupo para o qual devem ser melhoradas as políticas de apoio ao emprego, já que representam um segmento “que continuará a compensar o decréscimo natural de portugueses”, acredita Rita Campos e Cunha: a esse nível, “serão necessárias políticas de gestão da diversidade, que passam pela não discriminação salarial, pelo acesso a um emprego ajustado às competências do colaborador, por uma cultura de aceitação das diferenças e pelo apoio à integração cultural e educacional dos filhos dos colaboradores”, conclui.

A curto prazo, as empresas terão trabalhadores mais velhos e um segmento
menor de jovens adultos, enquanto a médio prazo, sofrerão mesmo “com a perda de
competências críticas e com a escassez de talento”, defende a também psicóloga. Neste contexto, a “escassez do talento mais jovem irá sentir-se” no mercado empresarial, conclui Rita Campos e Cunha.

Uma tendência que só pode ser invertida aumentando a descendência média em Portugal que, como foi referido, se cifra em apenas 1,32 filhos por mulher, em 2009. Mas desenvolver políticas de natalidade requer uma melhor conciliação entre emprego e família e a criação de incentivos para as famílias, muito concretamente na área da educação. Ou seja, implica percorrer um caminho que Portugal precisa de atravessar urgentemente mas que, em conjuntura de crise económica e social aguda, não deverá iniciar tão cedo. Comprometendo ainda mais a substituição das gerações no País.

in Portal VER

Monday, April 04, 2011

Sortelha

Por muralhas de terras que já foram municípios

O concelho do Sabugal ocupou posição de relevo na defesa das fronteiras do reino. No seu território há vários castelos em terras que já foram sede de concelho. Sortelha, Vila do Touro, Vilar Maior e Alfaiates são esses exemplos

SORTELHA, Vila do Touro, Vilar Maior e Alfaiates fazem hoje parte do vasto concelho do Sabugal. Em comum partilham uma história: todas elas foram sede de municípios. Mas há algo mais que as une num vasto abraço à história: o seu papel na defesa do reino, estando na primeira linha de embate em tempos em que as fronteiras eram instáveis em ténues geografias de receios avulsos, num território que se foi conquistando e defendendo légua a légua. E raramente sem o sacrifício das povoações da raia.

O concelho do Sabugal tem uma riquíssima história e património construído, elevando-se na raia como um dos esteios da defesa de Portugal. Raros concelhos ostentarão tantos castelos e ruínas de um tempo onde se lutou na consolidação de um país. A defesa começava aqui, por estes lugares com vista sobre terras a perder de vista, sob olhar austero destes guardiões de pedra erguidos nas alturas da raia beirã. Sortelha. Segunda-feira. Nesta tarde chuvosa, apenas um casal de turistas quebrava o silêncio. De máquina em punho, recolhia apontamentos fotográficos para memória futura. Sortelha deslumbra. E eles, os turistas, estão a ter conhecimento disso, em passo demorado e, por vezes, surpreendido. O tempo pretérito acomodou-se por aqui, neste regaço de pedra forte e sublime. Sortelha deslumbra porque guarda em si o seu tempo quase intacto. Tem uma áurea que nenhuma máquina fotográfica consegue captar. Tem o tempo que passou a passar por estas ruas.

Dentro das muralhas da aldeia vivem apenas três pessoas, "e todas de famílias diferentes", dizem-nos. Fora delas, as contas são outras, são feitas com algumas centenas de habitantes, mas não demasiadas. Esta é a mesma raia que, hoje, é das primeiras a sofrer com o desenfreado despovoamento do interior, com a saída dos seus para as cidades do litoral ou para o estrangeiro, tal como há séculos era a primeira a sofrer o embate das invasões. E não há castelo, nem muralha que sustenha estas fugas alavancadas no sonho e na necessidade.

A história de Sortelha remete-nos para o ano de 1181, para o reinado de D. Sancho I, com os primeiros esforços de repovoamento do lugar. Mas será com D. Sancho II que se dará a reforma administrativa e militar do território. Será este monarca que ordenará a construção do primeiro castelo e atribuirá o foral a Sortelha, em 1228. Ao longo dos séculos, esta aldeia contribuiu para a sedimentação da reconquista cristã dos séculos XII e XIII e para as disputas territoriais fronteiriças com os reinos de Leão e Castela na região de Riba- Côa. Nos reinados de D. Dinis, D. Fernando e de D. Manuel I, o castelo foi alvo de intervenções reconstrutivas. Já depois da restauração da independência, em 1640, uma nova rede defensiva é implementada em alguns pontos do país, baseada numa fortificação abaluartada, onde o tecido defensivo de Sortelha sofreu uma adaptação parcial das torres e muralhas às novas técnicas militares.

Sortelha guardou até 1885 o estatuto de sede de concelho. Hoje, a sua importância mede-se pelo turismo. É uma das estrelas da rede das Aldeias Históricas. Do alto dos seus 700 metros, a vista ainda alcança a ribeira do Casteleiro, a Serra da Malcata, a Cova da Beira e a Serra da Estrela. Mas dali já não vêm receios de invasões nem marchas de exércitos invasores. Só turistas, que entram por esta porta da muralha que lhes está constantemente franqueada. Hoje, todas as invasões são bem-vindas.

São essas boas-vindas que nos foram dadas em local propício: "As Boas Vindas Bar", onde Ana Maria nos recebe. Para além de turistas nacionais, a aldeia recebe hoje "muitos espanhóis e ingleses", principalmente nos períodos festivos e aos fins-de-semana. Ana Maria está a tomar conta deste bar, que é propriedade do irmão. Vive em Sortelha, mas "fora das muralhas". Todos os dias abre estas portas. Nesta velha Sortelha, vive-se "essencialmente do turismo e da agricultura", diz-nos. A aldeia já não nos defende, mas mantém intocável todo um charme que acumulou século após século, próprio de quem soube envelhecer.

A cidade do Sabugal está a 14 quilómetros. A sede de concelho é dona de um castelo imponente. Sabugal tornou-se sede de concelho em 1190, ganhando já no reinado de D. Dinis importância regional, coroando-se o castelo com uma imponente torre de menagem com as suas cinco quinas.

Segundo Rita Costa Gomes, em "Castelos da Raia - I Beira", a importância da localidade "estava muito ligada, na época medieval, à travessia do Côa por uma ponte de pedra". Deste castelo assente em local estratégico assistiu-se à entrada e saída de exércitos inimigos em Portugal, a convulsões militares que resultaram na destruição de monumentos e casario. Em torno do castelo a toponímia das ruas remete-nos para referências históricas incontornáveis: "Rua de Aljubarrota", "Rua Pedro Álvares Cabral" ou "Largo de Alcanizes". Este largo tem uma ligação estreita ao castelo que lhe está em frente. O tratado de Alcanizes foi assinado entre D. Dinis e o soberano de Leão e Castela, Fernando IV, em 1297. Neste compromisso delimitaram-se as fronteiras entre os dois reinos e em troca de direitos portugueses em domínios nos "Reinos de Leão e de Galiza", era reconhecida a Portugal a posse das chamadas terras de Riba-Côa, que compreendiam várias povoações e castelos, entre as quais, Sabugal. A dez quilómetros encontramos outra aldeia que outrora foi sede de concelho: Vila do Touro. Do velho castelo nada se vislumbra à entrada da aldeia, pelo que seguir pela rua dos Templários parece ser o melhor trilho para o passado. Chegaremos, por fim, junto à porta de arco em ogiva das muralhas. Este é dos poucos testemunhos existentes da sua antiga malha defensiva. Passando por este arco, subimos até nos darmos conta do porquê da importância geográfica de Vila do Touro na defesa das fronteiras: uma imensa vista sobre o horizonte, sobre uma vastidão de terras que tocavam as fronteiras com Castela e Leão, para geografias a perder de vista, onde o avançar de um exército jamais poderia passar desapercebido. Uma vista de surpresa e espanto, desde as ruínas da muralha de uma pequena localidade que foi sede de concelho até 1836. Atrás de nós, alargando-se para fora destas ruínas, uma povoação fundada no século XII, durante a Reconquista, tendo-lhe sido atribuído foral em 1220, durante o reinado de D. Afonso II. Mas agora, o tempo é de regresso; afastar-nos deste horizonte, de onde já se dissiparam as ameaças, receios e angústias. Hoje, as lutas são outras.


in Jornal do Fundão, por Nuno Francisco